• 1. Moderato

    2. Andante

    3. Allegro agitato

    4. Andante mosso – Allegro moderato

     

    A imagem artística de Rachmaninoff é formada por três áreas que dominava: o piano, a direcção de orquestra e a composição – o “deus em três pessoas”, como foi aclamado por um crítico. Formado na Rússia, foi lá que, até à partida forçada pela Revolução de 1917, criou a maior parte das suas obras, inclusive três concertos para piano e orquestra, duas sinfonias, o poema Os Sinos para solistas, coro e orquestra, as Vésperas e grande parte das obras de música de câmara. Depois de emigrar, foi o piano e a direcção de orquestra que lhe deram fama mundial. Ao mesmo tempo, o estilo composicional, que permaneceu fiel ao tipo melódico russo, à inspiração romântica e às tradições sinfónicas estabelecidas por Tchaikovski – embora modificado significativamente no segundo quarto do século XX –, era frequentemente considerado conservador por críticos e público habituados às inovações da época. A resistência ao seu talento enquanto compositor não contribuía para a produtividade: a quantidade de obras escritas no estrangeiro é significativamente inferior ao número de obras criadas na Rússia. Com o passar do tempo, todas elas foram reconhecidas como obras-primas de âmbito mundial; no entanto, o caminho para o coração do público nem sempre foi inequívoco.

    A Sinfonia n.º 3, que encerrou a sua produção orquestral juntamente com as Danças Sinfónicas, não foi excepção. Escrita em 1936 na Suíça e reconhecida pelo próprio autor como uma das suas melhores obras, foi maravilhosamente estreada (na opinião do compositor) pela Orquestra de Filadélfia dirigida por Leopold Stokowski. Entretanto, foi recebida acidamente (também segundo o próprio) por críticos e público. Dois meses e meio após a morte de Rachmaninoff, a sinfonia foi estreada na União Soviética. O maestro, Nikolai Golovanov, publicou a sua crítica à obra: “Um equilíbrio harmónico de pensamento criativo maduro, em conjunto com um sentimento sincero, calor espiritual e emoção, uma textura harmónica inovadora (…), uma riqueza polifónica, um ritmo apurado, uma orquestração requintada e uma forma rigorosa fazem desta sinfonia uma contribuição valiosa para o tesouro mundial musical e uma finalização digna da rica vida artística do compositor… A Terceira Sinfonia não impressionará à primeira, mas entretanto… ficará para sempre na memória do ouvinte como uma página cativante e emocionante do poderoso génio do artista russo.”

    A sinfonia tem três andamentos – o scherzo, que tradicionalmente configura um andamento independente, aqui está incluído no Adagio. De modo semelhante ao que acontece na Abertura-Fantasia Romeu e Julieta de Tchaikovski, a estrutura da sinfonia e a sua ideia dramatúrgica cimentam-se pelo motivo do destino. O seu contorno melódico aproxima-se dos temas de Rachmaninoff baseados no canto sacro russo antigo, que se revela, por exemplo, no tema inicial do Terceiro Concerto para piano. O tema do destino aparece no início da introdução, cautelosamente, como um prólogo; pouco depois envolve-se numa culminação trágica do primeiro andamento; regressa depois como uma reminiscência abafada no pizzicato das cordas; da mesma forma, os pizzicati encerrarão o segundo andamento. O final da sinfonia, embora introduza uma atmosfera de festa e alegria cintilante, é permeado pelos motivos do tema do destino, até à confluência com o tema Dies irae – sequência de um Requiem medieval. Os acordes conclusivos combinam a energia festiva com o tema do destino, o que lhes confere um aspecto sinistro.

    Ao mesmo tempo, o tema do destino demonstra uma faceta contrastante: a faceta lírica. Esta surge no timbre terno da trompa, nos primeiros compassos do segundo andamento – fazendo lembrar o motivo baseado em intervalos de segunda que acompanhava o tema do amor na obra de Tchaikovski. A seguir introduz-se, pela voz do violino solo, uma das mais belas cantilenas da obra de Rachmaninoff. Esta melodia entrelaça-se com uma série de outros temas líricos que, cada um à sua maneira única, iluminam a visão nostálgica da alma russa da sinfonia. A intensidade lírica eleva-se de tal forma que ultrapassa o tónus agressivo, mais uma vez confirmando os ideais infinitos de beleza que marcam toda a obra de Rachmaninoff.

     


    SVETLANA POLIAKOVA, 2017

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