Sinfonia nº 3,em Mi bemol maior, O 1º de Maio

Dmitri Chostakovitch, São Petersburgo, 25 de Setembro de 1906 / Moscovo, 09 de Agosto de 1975

[1929; c.30min.]

  • Ao longo do século XIX, o Primeiro de Maio era festejado um pouco por todo o Império Russo como uma celebração da Primavera. O escritor de viagens alemão Johann Georg Kohl (1808-1878) fez referência a essas festas campestres na sua obra Rússia e os Russos em 1842. Contudo, o significado da data mudou em 1889, quando o Congresso da Segunda Internacional Socialista, reunido em Paris, decretou o Primeiro de Maio como Dia Internacional dos Trabalhadores. No Império Russo, as comemorações desse Dia do Trabalhador foram proibidas até à Revolução de Fevereiro de 1917. Mesmo assim, a data era marcada por greves e comícios ilegais nas cidades em que os movimentos operários estavam mais bem implementados. A primeira comemoração livre desse dia deu-se em 1917, com uma grande adesão da população russa e com omnipresença de slogans do Partido Bolchevique. No ano seguinte, após a Revolução de Outubro de 1917, as celebrações foram dominadas por esse partido e a crónica publicada no jornal Izvestiya a 3 de Maio refere os discursos, os cortejos, a decoração dos principais edifícios, a adesão da população e os cânticos revolucionários, como A Internacional e A Marselhesa. Tal como outros regimes, os bolcheviques instituíram comemorações próprias em torno de datas importantes para o novo poder. Assim, o Primeiro de Maio tornou-se uma data central no novo calendário.

     

    O jovem Dmitri Chostakovitch (São Petersburgo, 25 de Setembro de 1906 – Moscovo, 9 de Agosto de 1975) testemunhou as revoluções em Petrogrado (o nome de Leninegrado entre 1914 e 1924) e tentou captar a atmosfera da Revolução de Outubro em diversas obras, como a Sinfonia n.º 2, Dedicada a Outubro, composta no décimo aniversário do evento (e tocada nesta sala há dois dias); a Sinfonia n.º 12, O ano de 1917, e o poema sinfónico Outubro. Na juventude, o compositor planeou escrever um ciclo de sinfonias em torno dos feriados soviéticos. Assim foi concebida a Sinfonia n.º 3, O 1º de Maio, uma das suas obras menos conhecidas. Chostakovitch compôs a sinfonia em 1929 e apresentou-a ao Conservatório para admissão nos estudos pós-graduados. A 21 de Janeiro de 1930, no sexto aniversário da morte de Lenine, a obra foi estreada na Casa da Cultura do Bairro de Moscovo-Narva, pela Orquestra Filarmónica de Leninegrado e pelo Coro Académico Estatal, sob a direcção de Aleksandr Gauk. Esse edifício, cuja sala podia acomodar 2.200 pessoas, foi construído entre 1925 e 1927, apresentando-se como um dos primeiros exemplos do estilo modernista e despojado da arquitectura construtivista soviética.

    A estreia da Sinfonia n.º 3 foi ofuscada pela primeira apresentação de outra obra de Chostakovitch, a ópera O nariz. Inspirada num conto de Gogol, a obra foi bem recebida pelo público, apesar das críticas negativas que categorizaram a música como “formalista” pela primeira vez. Isso indiciou uma transformação na arte soviética. Enquanto estudante de composição, o compositor gozava de alguma liberdade criativa, garantida por um decreto partidário de 1 de Julho de 1925. Paralelamente, a Associação para a Música Contemporânea, fundada pelo compositor Nikolai Roslavets, desenvolvia um importante trabalho de apresentação de repertórios modernistas internacionais. Mais tarde, essa associação foi relegada para segundo plano, ganhando primazia a Associação Russa de Músicos Proletários, que defendia que a arte deveria ter um conteúdo proletário e ser compreensível para o povo. Assim, Chostakovitch foi criticado pelos seus critérios estéticos (que se fundiam com os políticos) ao mesmo tempo que apresentou uma sinfonia inspirada nos movimentos laborais, revelando a ambiguidade da sua relação com o poder instituído.

    Tal como a Sinfonia n.º 2, a Sinfonia n.º 3 é escrita num único andamento dividido em secções contrastantes, terminando com um coro. Inicialmente, o compositor musicaria um texto do poeta Demian Bedny. Contudo, o texto final é da autoria de Semion Kirsanov. Kirsanov foi um poeta associado ao Futurismo soviético e o seu texto aponta para o futuro do proletariado revolucionário enquanto comemora o Primeiro de Maio. Ao contrário do que seria expectável no género, a repetição temática não é uma característica formal da Sinfonia n.º 3. Assim, a abundância de material temático, apresentado em sucessão e sobreposição, é uma característica central na obra. Paralelamente, muito desse material é distribuído por diversos conjuntos de câmara seleccionados na orquestra. Exemplo disso é o início da obra, com os solos dos clarinetes evocando uma melodia de sabor tradicional. Paralelamente, remete para o universo sonoro de Leninegrado nesse período, misturando marchas militares, fanfarras, canções de trabalhadores, música tradicional e música popular urbana da época numa longa rapsódia que atinge o clímax com a intervenção do coro. Assim, o público encontrou uma macro-forma escrita numa linguagem musical que reflectia o quotidiano ao qual estava habituado, uma espécie de desfile político com claros ecos proletários, transformado numa obra de concerto.

     


    João Silva, 2016 

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