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  • 1. Lento (sostenuto tranquillo ma cantabile)

    2. Lento e Largo (tranquillissimo – cantabillissimo – dolcissimo – legatissimo)

    3. Lento (cantabile – semplice)

     

    A Sinfonia n.º 3 de Henryk Górecki é uma obra marcante da música contemporânea. O abrandamento do controlo estatal das artes no final dos anos 50 iniciou um período de experimentação para os compositores polacos, reflectido na criação do Festival de Outono de Varsóvia em 1956. Esse evento era dedicado à apresentação de estreias de obras das vanguardas polacas e estrangeiras. Após uma curta interrupção, o festival foi retomado em 1958 e estabeleceu-se como uma referência na Europa Central. Dessa forma, serviu de ponto de intercâmbio entre as correntes estilísticas da Europa Ocidental, como o pós-serialismo, e as tendências emergentes nos países-satélite da União Soviética. Nesse processo, deu a conhecer novos compositores polacos, como Penderecki e Górecki, que começaram também a apresentar as suas obras no Ocidente.

    A fase inicial da carreira de Górecki é caracterizada pelo recurso a técnicas serialistas, enquadrando-se nos modelos das vanguardas internacionais. Contudo, a partir de meados dos anos 60 o seu estilo transformou-se, o que se encontra patente na Sinfonia n.º 3. A inspiração na himnodia religiosa e no melodismo popular, o recurso à harmonia triádica e a valorização do estatismo e da consonância são claramente audíveis na obra.

     

    A Sinfonia n.º 3 foi composta em 1976 e estreada a 4 de Abril do ano seguinte, no Festival Internacional de Arte Contemporânea de Royan, um certame de referência para as vanguardas artísticas. A obra destina-se a soprano e orquestra, sendo a sua temática a perda e a separação associada aos conflitos armados. Assim, uma voz feminina, ressonância da voz maternal, conduz a sua narrativa. O primeiro andamento começa com um cânone de sabor modal no qual as vozes são sucessivamente adicionadas da mais grave para a mais aguda e posteriormente retiradas, até alcançarem um uníssono. A secção intermédia coincide com a entrada da cantora entoando um texto retirado de uma canção tradicional polaca do Renascimento, um lamento da Virgem Maria a Cristo na cruz. O final do andamento retoma o tema e a escrita canónica do início, desta vez da voz aguda para a voz mais grave, até se dissipar no limiar do espectro auditivo.

    O segundo andamento baseia-se num texto que o compositor encontrou numa parede de uma prisão da Gestapo em Zakopane, no sul da Polónia. Esse texto é uma prece à Virgem Maria, e o andamento tem uma atmosfera etérea de melodia tradicional pairando sobre a orquestra, aproveitando as ressonâncias sobre um material harmónico estático.

    A obra termina com um andamento que se baseia num motivo principal e remete para os elementos do andamento anterior, misturando-os com materiais retirados da música de Chopin e de Beethoven. O texto é de uma canção tradicional da altura das revoltas silesianas contra a autoridade alemã, ocorridas entre 1919 e 1921. Na canção, uma mãe busca o seu filho morto pelos alemães. Chopin, compositor nascido na Polónia, é evocado pelo uso de acordes da sua Mazurka op. 14 como base de um ostinato, e a parte de piano do andamento remete para a Sinfonia n.º 3 de Beethoven.

    Assim, os três andamentos da obra encarnam um ciclo que remete para a história conturbada da Polónia, actuando como uma espécie de reflexão sobre a finitude e a separação. Na sua estreia, a Sinfonia foi mal recebida pela crítica, visto contrastar fortemente com as obras das vanguardas que eram valorizadas na época. Todavia, ascendeu à fama em 1992, quando uma gravação pela London Sinfonietta dirigida por David Zinman e com a soprano Dawn Upshaw foi editada pela Nonesuch Records. Em pouco tempo alcançou os tops de vendas, tendo estas ultrapassado um milhão de unidades, feito pouco habitual para uma obra de música contemporânea.

     


    João Silva, 2017 

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