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  • 1. Allegro assai

    2. Adagio

    3. Menuetto: Allegretto

    4. Finale: Presto – Adagio 

     

    A Sinfonia n.º 45 de Joseph Haydn pertence a uma fase da produção do compositor caracterizada como pertencente à estética do Sturm und Drang, movimento literário de língua alemã que marcou, na década de 1770, a obra de autores como Goethe ou Schiller. Apesar do alheamento de Haydn relativamente às correntes literárias do seu tempo, há uma ligação marcante entre os princípios do Sturm und Drang (que privilegiava a expressão dos sentimentos e valorizava o lado sombrio e pessimista na escolha de temas) e a exploração de efeitos de contrastes e a expressividade da escrita de Haydn no início da mesma década.

    A Sinfonia n.º 45 foi composta em 1772 e resulta, tal como grande parte da produção de Haydn, das tarefas que desempenhava enquanto músico de capela da corte dos príncipes de Esterházy. Contrariando a crescente independência dos compositores da época, que levava a que optassem por desenvolver a sua actividade de forma autónoma e assumir vidas assaz cosmopolitas, não isentas de dificuldades, Haydn estabeleceu-se como músico de corte durante quase três décadas. Algum isolamento daí decorrente teve as suas vantagens, conforme explicou Haydn: “O meu príncipe estava agradado com o meu trabalho, eu era elogiado e, como maestro, podia experimentar, observar o que melhorava ou prejudicava um efeito e, logo, aperfeiçoar, substituir, omitir, ou experimentar coisas novas; estava isolado do mundo, ninguém me podia desviar ou incomodar, e vi-me forçado a tornar-me original.”

    A associação de Haydn aos príncipes de Esterházy iniciou-se em 1761, quando o jovem compositor se tornou assistente do Mestre de Capela dos Esterházy, Gregor Werner. À morte de Werner, em 1766, Haydn sucedeu-lhe, tornando-se o novo Mestre de Capela, evento que coincide, aliás, com a inauguração da nova residência de Verão dos príncipes, Eszterháza, frequentemente comparada a Versalhes pelo seu fausto. Haydn permaneceria ao serviço dos Esterházy praticamente até ao fim da sua vida: inicialmente com o Príncipe Paulo e, depois da morte deste em 1762, com o Príncipe Nicolau, melómano e músico amador. Na qualidade de Mestre de Capela, Haydn compunha e dirigia eventos musicais no palácio de Eisenstadt, residência principal dos Esterházy, e no palácio de Eszterháza, residência de Verão com salas de música e dois teatros, onde eram apresentadas óperas e espectáculos de marionetas. A morte de Nicolau em 1790 não dissolveria a ligação com o principado, já que Haydn manteve uma pensão generosa, mas finalmente pôde escolher outros caminhos que o levariam a viajar até Londres e a estabelecer-se em Viena.

    A marca do espírito do Sturm und Drang é nítida na Sinfonia n.º 45, onde os contrastes e a originalidade da instrumentação são características importantes. A expansão de recursos estilísticos patente nesta obra tem uma ligação a uma história bastante conhecida, indissoluvelmente associada a esta Sinfonia e ao seu nome (“do Adeus”). Os Esterházy abandonavam o palácio de Eisenstadt no Verão, que era passado em Eszterháza, e eram acompanhados nesta deslocação pelos seus músicos, que não estavam autorizados a levar as suas famílias. Quando o Príncipe Nicolau, em 1772, manifestou desejos de prolongar a sua estadia em Eszterháza, Haydn compôs uma sinfonia de características especiais que reflecte, por intermédio da música, o descontentamento dos músicos em relação a esta situação. Embora a Sinfonia n.º 45 não seja uma obra programática em sentido estrito, o material que inclui é susceptível de interpretações simbólicas, representando o desalento dos músicos que se viam privados do convívio com os familiares.

    A escolha para esta obra da tonalidade de Fá sustenido menor, uma tonalidade raramente usada na era clássica, revela já uma opção invulgar. Os vários andamentos manifestamente contrastantes podem ser interpretados como apresentando estados de espírito diferentes, associados às circunstâncias acima descritas. O Allegro assai inicial está claramente marcado pelo desespero, interrompido apenas por uma secção central de carácter lírico, representando quiçá a esperança na magnanimidade que a obra tencionava suscitar. A tristeza é marcante no Adagio, onde os violinos em surdina apresentam material por vezes desconexo, sugestivo de desorientação e abatimento. Mas é sobretudo no Finale que a referência ao Adeus encontra a sua razão máxima: constituído por duas secções, começa com passagens orquestrais de carácter virtuosístico, de forma a simbolizar a impaciência dos músicos, terminando com um Adagio de estrutura invulgar. Os instrumentos, começando pelos instrumentos de sopro, fazem intervenções solísticas e encerram por fases a participação no conjunto até que apenas dois violinos continuam a tocar, concluindo por sua vez o andamento em decrescendo gradual até ao silêncio. Na corte de Eszterháza, os músicos iam-se retirando, apagando as velas, à medida que terminavam a sua intervenção. Esta reivindicação laboral em forma sinfónica foi, ao que parece, eficaz: os músicos que tinham deixado as famílias em Eisenstadt foram autorizados a regressar.

     


    Helena Marinho 

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