Sinfonia nº 5 em Dó menor Op. 67

Ludwig van Beethoven, Bona, 16 de Dezembro de 1770 / Viena, 26 de Março de 1827

[1808; c.34min.]

  • 1. Allegro con brio

    2. Andante con moto

    3. Allegro –

    4. Allegro

     

    No dia 22 de Dezembro de 1808, o Theater an der Wien, em Viena, foi palco de um concerto verdadeiramente extraordinário. Para já, pela dimensão do programa: quatro horas de música, toda ela de Beethoven, quase toda desconhecida do público. E, depois, pelo conteúdo: estreia da Quinta e da Sexta Sinfonias (então designadas pela numeração inversa da que hoje conhecemos); primeira apresentação pública, em Viena, do Quarto Concerto para Piano; execução de partes da Missa em Dó e de uma ária composta 12 anos antes, em Praga; improvisações de Beethoven; e, para terminar, uma obra coral composta propositadamente para o concerto, conhecida como Fantasia Coral. Numa única noite, eram pela primeira vez ouvidas várias obras-primas da música ocidental. É difícil imaginar o impacto que teve o concerto em quem pôde presenciá-lo. (E mais difícil ainda imaginar um concerto tão longo – e com tantas estreias – nos nossos dias!)

    No caso da Quinta Sinfonia – de que aqui nos ocupamos –, a obra começou rapidamente a ganhar um estatuto quase mítico. Numa muito influente recensão crítica publicada logo em 1810, E. T. A. Hoffmann descrevia o modo como a obra “nos revela o reino do extraordinário e do incomensurável”, como “movimenta a alavanca do terror, do medo, do pavor, da dor, e desperta aquela infinita saudade que é a essência do Romantismo”, e como mesmo nos momentos a seguir ao fim da performance o “ouvinte sensível não conseguirá ainda sair do maravilhoso reino espiritual, onde foi circundado pelo prazer e pela dor sob a forma de sons”. Para Hoffmann, a Quinta Sinfonia mostrava como Beethoven era o Mestre supremo do Romantismo na música e aquele que tinha compreendido a essência da arte musical do modo mais profundo. Para Hector Berlioz – no seu “Estudo Crítico sobre as Sinfonias de Beethoven, publicado em 1844 – a Quinta Sinfonia, “a mais célebre de todas”, “emanava directa e unicamente do génio de Beethoven, nela se desenvolvendo o seu pensamento íntimo, as suas dores secretas, as suas cóleras concentradas, os seus sonhos plenos de triste desespero, as suas visões nocturnas, as suas erupções de entusiasmo”. E são conhecidas as histórias de reacções extremas à obra: assim Goethe, ouvindo a obra tocada ao piano por Mendelssohn, disse-lhe que a obra era “absolutamente louca! Podia esperar-se que a casa viesse abaixo!”; a grande cantora Malibran, quando ouviu a obra pela primeira vez, em Paris, ficou tomada por convulsões e teve de ser retirada da sala; e, referindo-se a uma apresentação da obra em Paris, Berlioz descreveu como o auditório “cobriu a orquestra com os seus gritos… Um espasmo nervoso agitava toda a sala”.

    Como é bem sabido, todo o primeiro andamento baseia-se no motivo inicial de quatro notas – talvez o fragmento musical mais conhecido de toda a história da música. Muitas foram as interpretações suscitadas por este motivo, em especial no século XIX: desde as pancadas que o Destino bate à porta, às trombetas do Dia do Juízo, ou até o canto de um pássaro que Beethoven teria ouvido num dos seus frequentes passeios pelo Prater, um jardim público em Viena. Numa perspectiva que hoje provavelmente nos parecerá mais razoável, Leonard Bernstein, num dos seus célebres programas televisivos, rejeita todas essas interpretações, dizendo que elas “nada nos dizem (sobre o significado das quatro notas iniciais). A verdade é que a resposta, autêntica, encontramo-la nós em todas as notas que se seguem àquele motivo, todas as notas dos quinhentos compassos que ouvimos a seguir, no primeiro andamento”. Por outras palavras, é a extraordinária elaboração da ideia inicial – e não tanto a ideia em si – que faz a força tão singular deste andamento. Quanto ao carácter expressivo, é geralmente agitado, turbulento, com momentos de “fúria selvagem” (no dizer de George Grove) ou de “delírio frenético” (no de Berlioz), embora também se ouça um tema mais lírico e delicado.

    Se o primeiro andamento é dramático, o segundo é lírico. É, assim, tranquilo e doce o tema inicial – apresentado nas violas e violoncelos, com discreto acompanhamento dos contrabaixos, em pizzicato. Este tema regressa várias vezes ao longo da obra, cada vez mais elaborado. Fazendo-lhe contraste, ouvimos um outro tema nos sopros, com carácter triunfal, vitorioso. Apesar de mais intenso que o tema anterior, não representa de forma alguma um regresso ao ambiente do primeiro andamento, pois o seu sentido é eminentemente positivo, não angustiado e turbulento.

    O terceiro andamento retorna a um ambiente mais sombrio, mas agora com um toque de mistério, dado em especial pelo tema inicial, interrogador, nas cordas graves. A parte central é vigorosa e algo humorística, pelo efeito dos contrabaixos a tocarem notas muito rápidas, que Berlioz comparou às traquinices de um elefante radiante, aos saltos! O mais notável, contudo, é o modo como a parte final se liga, sem qualquer interrupção, ao quarto andamento. Num efeito orquestral sem precedentes, a música cresce gradualmente até explodir num tema glorioso, triunfal e luminosíssimo, tocado por toda a orquestra (incluindo flautim, trombones e contrafagote, que até aqui não tinham tocado). A música completa assim uma trajectória das trevas até à luz. Para muitos, é essa, no essencial, a história da Quinta Sinfonia de Beethoven.

     


    Daniel Moreira, 2016 

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