• 1. Allegro con anima

    2. Andante cantábile, con alcuna licenza

    3. Valse – Allegro moderato

    4. Finale

    Formado pela Faculdade de Direito de São Petersburgo, Tchaikovski ingressou no então recém-criado Conservatório de Moscovo em 1862, instituição que viria mais tarde a adoptar o seu nome em reconhecimento pelo estatuto de mais ilustre compositor russo do seu tempo. Os seus professores foram Anton Rubinstein e Nikolai Zaremba e, quatro anos após o ingresso enquanto estudante, Tchaikovski viria a leccionar na instituição. Foi professor durante 12 anos, até 1878, altura em que já não precisava mais do dinheiro que auferia no ensino. Esta grande transformação na sua vida deu-se graças ao apoio de uma admiradora extremamente rica, Nadejda von Meck, viúva de um milionário que detinha uma importante cota dos caminhos-de-ferro da Rússia. Nadejda, com quem manteve uma relação estranhíssima, tendo em conta se correspondiam intensamente mas apenas se viram uma vez e nunca falaram pessoalmente, atribuiu-lhe uma pensão suficientemente generosa para Tchaikovski poder viver exclusivamente da composição. Neste domínio, foi contemporâneo e próximo do importante Grupo dos Cinco, mas manteve uma linha estética independente, mais cosmopolita, no sentido em que, a par de elementos nacionalistas, absorveu influências das correntes em voga nas capitais europeias e combinou-as magistralmente na sua música.

    Genial em vários domínios, quer na grande forma, quer na miniatura, Tchaikovski ficou conhecido pelos inúmeros bailados de grande sucesso, por obras concertantes magistrais para diferentes instrumentos, pelos belíssimos temas cíclicos das suas sinfonias, e pela verve lírica que originou algumas das mais apaixonadas melodias que povoam os seus poemas sinfónicos e aberturas de concerto.

    A sua 5ª Sinfonia, a exemplo do que já acontecera com a 4ª, é percorrida por um desses temas cíclicos que aparecem nos diversos andamentos com “roupagens” distintas e que dão um grande sentido de unidade à obra. E a ideia implícita desse tema, do ponto de vista extramusical, é exactamente a mesma que já havia dominado a sinfonia anterior: o fatum, ou destino. Um destino ao qual o indivíduo não consegue escapar. Este sentimento insere-se perfeitamente no espírito do Romantismo e encontra nas obras musicais de Tchaikovski um expoente máximo no requinte narrativo.

    É interessante determo-nos um pouco sobre esta ideia do destino que domina a vida de um indivíduo e ao qual ele não pode fugir. Ao contrário da 4ª Sinfonia, cujo programa narrativo o compositor relatou em detalhe numa carta que escreveu a Nadejda von Meck, a 5ª Sinfonia tem um programa desconhecido ou, melhor dizendo, apenas parcialmente conhecido. Num livro de apontamentos do compositor, uma página com a data de 15 de Abril de 1888 revela-nos o seguinte:

    “Introdução – Resignação total perante o destino, ou, o que é semelhante, os inescrutáveis desígnios da Providência. Allegro. (i) Murmúrios dedúvida,queixas, reprovação em relação a XXX. (2) Deverei entregar-me semreservasà fé??? Um programa maravilhoso, consiga eu realizá-lo.”

    Em relação ao segundo andamento, outros esboços do compositor falam da alternância entre “consolação” e “raio de luz.”

    São diversas as teorias, por vezes conspirativas, em relação a estes “X”. Nos diários de Tchaikovski, as letras “X” e “Z” aparecem sempre de forma enigmática e não é possível, pela forma como as frases são escritas, associá-las a pessoas ou situações específicas. A maior parte dos autores são da opinião que o “X” se refere à homossexualidade do compositor, algo que jamais poderia assumir na sociedade em que vivia. Alguns apontam mesmo que a sua morte não terá sido provocada pela cólera, mas antes um suicídio motivado por esta razão. No entanto, há também outras teorias. Uma importante biografia da autoria de Alexander Poznanski (1991) sugere que a letra “X” se refere ao vício do jogo.

    A questão que mais nos interessa para ouvir a 5ª Sinfonia, é saber se esta breve indicação no diário se reflecte na música. A introdução da Sinfonia em Mi menor é dos inícios mais tristes e solenes do universo sinfónico. Disso não restam dúvidas ao ouvir a música; a marcha que os clarinetes tocam no seu registo grave com a repetição das seis notas descendentes ao terminar a primeira frase cria um clima verdadeiramente resignado. É fácil, pois, fazer a ligação com o diário: “Resignação total perante o destino, ou, o que é semelhante, os inescrutáveis desígnios da Providência”. Alexander Poznanski faz ainda alusão à morte de um amigo próximo de Tchaikovski, de seu nome Kondratiev, e cuja lenta agonia o compositor testemunhou oito meses antes de escrever a sinfonia. O ritmo fúnebre da introdução corrobora a opinião deste biógrafo. Esta introdução é o tema cíclico que dominará a Sinfonia, reaparecendo de forma dramática e repentina no segundo andamento ao interromper uma canção de consolação. No terceiro andamento, interrompe novamente numa valsa. No último andamento, o tema sofre uma mutação para culminar triunfalmente em Mi maior, sendo esta a razão do outro grande enigma sobre o significado desta sinfonia – se a vitória do indivíduo sobre o seu triste destino, conseguindo transformá-lo, ou se o triunfo do próprio fatum.

    Já os “murmúrios de dúvida” que dão início ao Allegro, após a introdução, corresponderiam aos solos de clarinete e fagote. Sendo este um clima mais desanuviado, as alternâncias harmónicas são as mesmas da introdução e é interessante que Tchaikovski tenha começado um novo tema dando novamente o protagonismo aos clarinetes (um mesmo personagem com um carácter diferente). É este o tema desenvolvido nos clímaxes do andamento. Um segundo tema, dado às cordas, dá um novo colorido à música, de grande lirismo e mais despreocupado.

    O segundo andamento tem um solo de trompa magnífico, com uma melodia belíssima. (Muitos melómanos ficarão a questionar-se onde é que já ouviram a melodia, num outro contexto naturalmente. Ela foi transposta para outro registo bem diferente por Mack Davies, Mack David e André Kostelanetz, ficando conhecida como Moon Love em múltiplas gravações, incluindo uma afamada interpretação de Glenn Miller com a sua orquestra.) Depois de um segundo tema introduzido pelo clarinete, um “raio de luz”, o tema cíclico aparece destruindo toda a atmosfera do andamento.

    O lirismo de Tchaikovski faz-se ouvir na bonita valsa que substitui os tradicionais scherzos dos terceiros andamentos. Aqui, o tema do destino surge nos fagotes e clarinetes como um fantasma, discretamente já perto do fim.

    O tema do destino dá início ao último andamento, mas desta feita transformado para a tonalidade de Mi maior. Ao longo do andamento este tema sofrerá outras mutações, aparecendo apenas na sua fórmula rítmica, ou num fortíssimo majestoso que pode levar a sala a irromper num aplauso antes que a sinfonia termine. Mesmo assim, o grande clímax ainda está para vir, sendo este, num efectivo contraste com o início da Sinfonia, um dos finais mais apoteóticos do repertório sinfónico.

    A 5ª Sinfonia foi estreada em São Petersburgo a 5 de Novembro de 1888 sob a direcção do seu compositor. Foi recebida entusiasticamente pelo público e desastrosamente pela crítica. Este facto desmotivou muito Tchaikovski que, no entanto, a dirigiu novamente em Hamburgo no ano seguinte comprovando uma vez mais a adesão do público à sua estética.


    Rui Pereira, 2014

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