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  • 1. Largamente

    2. Zavala: Moderato

    3. Largo

    4. Allegro energico ed apassionato

    A produção sinfónica de Joly Braga Santos engloba um total de seis sinfonias. Nas primeiras quatro, escritas entre 1946 e 1950, o compositor utiliza o “modalismo e os elementos básicos da forma-sonata” (Joly Braga Santos, 1986). Após um interregno de 15 anos, Joly rompe com o modalismo e com as formas clássicas para utilizar uma linguagem totalmente nova na Sinfonia n.º 5. É o próprio compositor quem, em 1986, por ocasião da primeira gravação discográfica da obra, a classifica como “uma obra da vanguarda de então [1966]” e explica o seu princípio construtivo: “A forma afasta-se da sonata ditemática, embora não se verifique o sistema do atematismo, tão caro à maioria dos compositores que partiam de Webern para a conquista de um novo mundo musical.” Esta inovação discursiva acontece na sequência de uma viagem a Roma, entre 1959 e 1961, para estudar composição com Virgilio Mortari, na qual Joly Braga Santos absorve as tendências musicais vanguardistas de então, nomeadamente a exploração do timbre, a dissonância atonal e o livre cromatismo.

    Estruturada em quatro andamentos, a quinta obra sinfónica de Joly utiliza os recursos de uma formação orquestral de grandes dimensões, num total de cerca de 100 músicos: 2 flautins, 2 flautas, 3 oboés, corne inglês, 3 clarinetes, clarinete baixo, clarinete contrabaixo, 4 fagotes, 6 trompas, 4 trompetes, 3 trombones, tuba, 2 timbaleiros, uma secção de percussão com mais de 12 percussionistas, 2 harpas e um naipe de cordas com, pelo menos, 30 violinos, 10 violas, 10 violoncelos e 8 contrabaixos.

    O 1º andamento, Largamente, contém o “tema gerador – caracterizado pela assimetria e largos intervalos – em que baseio toda a obra”, explica o compositor em 1986. São as violas, depois de uma curta introdução orquestral, as encarregues de apresentar o “tema gerador”: uma melodia de figuras rítmicas longas que começa com um intervalo de 9ª menor ascendente, “logo desenvolvido e variado livremente” durante o andamento. “Desenvolvimento e variação fundem-se assim, procurando oferecer fortes elementos de contraste”, esclarece Joly. O resultado sonoro é assombroso, porquanto todo o andamento decorre numa alternância entre uma compacta massa sonora do tutti orquestral e a sobreposição de várias linhas melódicas. Quase a terminar, o tema cíclico regressa pela mão de uma viola solista, numa espécie de reexposição tardia.

    Zavala é o nome de um distrito da província de Inhambane, na região Sul de Moçambique, que Joly Braga Santos visitou em 1965. O fascínio das “dezenas e dezenas de marimbas, afinadas em várias tonalidades que se sobrepõem, com diversas escalas, algumas delas de uma constituição intervalar muito original, completamente estranha a tudo o que se conhece da música europeia” levou o compositor a recriar esse ambiente evocando a “tradição secular” dos marimbeiros daquele distrito moçambicano no 2º andamento da sinfonia. Joly substituiu as marimbas por 2 vibrafones, 1 celesta, 1 piano e 2 harpas, atribuiu escalas e ritmos diferentes a cada instrumento, e sobrepô-los, obtendo um ostinato de rara beleza tímbrica e rítmica, sobre o qual as madeiras interpretam lindas frases melódicas.

    O terceiro andamento, Largo, é “o andamento dramático da sinfonia”, de acordo com o compositor. “Espaços, linhas e volumes sucedem-se e cruzam-se; agregados harmónicos e tímbricos procuram sobretudo a cor peculiar à obra; desenvolvimento e variação expandem-se num conflito correspondente à clássica oposição temática”, descreve Joly em 1986.

    A obra termina com um Allegro energetico ed apassionato. São os timbales quem dão o mote com um ostinato rítmico em 7/8 marcado por apontamentos de vários instrumentos de percussão. Eis senão quando, surgem as seis trompas a tocar em uníssono o tema cíclico da sinfonia. “Segue-se uma série de variações tímbricas, rítmicas e melódicas” protagonizadas pelos diferentes naipes da orquestra. Perto do final do andamento, Joly introduz uma secção mais lenta – Largamente, ma rubato – na qual os violinos desenham longas frases melódicas. O lirismo das cordas dá lugar a um progressivo crescendo do tutti orquestral que vem a desembocar numa fortíssima explosão sonora, concretizada musicalmente por um acorde consonante, o acorde de Mi maior, que conclui a sinfonia “de forma apoteótica”.

    A Sinfonia n.º 5 foi encomendada pelo Estado português para assinalar os 40 anos da Revolução Nacional do 28 de Maio, motivo pelo qual ostenta o subtítulo Virtus Lusitaniae – Virtude da Lusitânia. Foi o próprio compositor quem a estreou, dirigindo a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, no Teatro de S. Carlos, a 2 de Dezembro de 1966. Três anos mais tarde, em 1969, foi distinguida com o prémio da Tribuna Internacional de Compositores da UNESCO.

     


    Ana Maria Liberal

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