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  • 1. Andante

    2. Allegro marcato

    3. Adagio

    4. Allegro giocoso

     

    «Quando Prokofieff subiu ao estrado e se fez silêncio, uma salva de tiros de artilharia trovejou repentinamente. Prokofieff tinha já levantado a batuta. Ele esperou e não começou até que os tiros tivessem terminado. Havia nisto algo de muito significativo, muito simbólico. Era como se todos nós – incluindo Prokofieff – tivéssemos atingido uma espécie de ponto de viragem partilhado.»

    As palavras são de Sviatoslav Richter (citadas por Daniel Jaffé, na sua biografia sobre Prokofieff) e referem-se ao extraordinário momento, a 13 de Janeiro de 1945, em que o compositor se preparava para começar a dirigir a sua Quinta Sinfonia, em estreia absoluta, no Conservatório de Moscovo. A salva de tiros – disparada de bem perto do Conservatório – celebrava uma importante vitória do Exército Vermelho contra o Exército Nazi. O momento era de alívio e esperança, antevendo-se já o final da Guerra que, na Europa, chegaria quatro meses depois. De tom épico e carácter predominantemente optimista, a música de Prokofieff parecia exprimir a essência daquele momento histórico – e a salva de tiros servir-lhe de mote. O próprio compositor considerou a Sinfonia “uma expressão da grandeza do espírito humano”, um espírito capaz de resistir às circunstâncias mais cataclísmicas – as daquela Guerra – e reafirmar a sua força criativa. Terá sido essa adequação ao momento histórico uma das razões que, logo na estreia, tornou a obra um enorme sucesso, acabando por consagrar a reputação de Prokofieff como o compositor mais importante de toda a União Soviética.

    A obra foi composta muito rapidamente, no espaço de apenas um mês, entre Julho e Agosto de 1944. Prokofieff encontrava-se então numa espécie de retiro que o Sindicato dos Compositores Soviéticos organizara perto de Moscovo, numa antiga propriedade rural de um aristocrata. Em tempo de guerra, o retiro proporcionava aos cerca de 20 compositores que lá se foram juntando condições excepcionais: trabalhavam descansadamente, viviam lá com as suas famílias e conviviam amigavelmente uns com os outros. Depois de vários anos de constantes deslocações em fuga ao conflito (Prokofieff, por exemplo, vivera alternadamente em Nalchik, no Caúcaso, em Tbilisi, capital da Geórgia, e Almata, capital do Cazaquistão), e justamente agora que o destino da guerra claramente se virara a favor dos soviéticos, o tempo era de esperança.

    A música é muito característica do estilo de Prokofieff, um compositor de sensibilidade extremamente versátil, para quem era tão natural o sentido épico e grandioso (veja-se a banda sonora de Alexandre Nevsky) como o registo jovial e descontraído (veja-se a Sinfonia Clássica); tão comum a expressão séria e solene como a cómica e sarcástica (tão característica, esta última, dos seus Scherzos); tão habitual o carácter explosivo e violento (recorde-se a “Suite Cita”) como o lírico e delicado. Todos esses elementos se encontram na Quinta Sinfonia. Assim, o primeiro andamento – dominado por um “espírito de demanda filosófica”, nas palavras de Harold Sheldon – começa de forma solene mas simultaneamente sonhadora, como que antevendo a possibilidade de um mundo melhor; aos poucos a expressão intensifica-se, acabando por adquirir uma solene grandiosidade na parte final (talvez uma sugestão da grandiosidade do desígnio a que está votado o tal “espírito humano” e da dimensão das forças com que ele se confronta). Completamente diverso é o segundo andamento, de carácter predominantemente agitado, mecânico e sarcástico, mas também com momentos mais relaxados e divertidos, e outros ainda assustadoramente grotescos. O terceiro, que não raras vezes evoca a música do bailado de Romeu e Julieta, cumpre a função de andamento lento, sendo de todos o mais lírico – lirismo esse que assume frequentemente uma carga trágica e dolorosa, como que retratando o homem perante forças obscuras e implacáveis. Toda essa carga negativa parece ser libertada no último andamento, muito mais divertido e exuberante, dominado, em suma, por um espírito de festa e exaltação, talvez o sentido já da anunciada vitória.

    Ao contrário da Quinta Sinfonia de Beethoven, cuja construção (como é dele característico) se tende a basear em pequenos motivos musicais – em especial o primeiro andamento, inteiramente baseado no celebérrimo motivo inicial de quatro notas –, já a construção da Sinfonia de Prokofieff baseia-se (como é também dele característico) em melodias relativamente longas, que vão sucessivamente reaparecendo, em diferentes formas. Por exemplo, a melodia inicial da flauta e fagote, de carácter doce, torna-se logo a seguir mais intensa, quando aparece nos violinos, e heróica e explosiva na parte final, tocada que é pelo conjunto inteiro dos metais, no contexto de um grande tutti com acentos tonitruantes na percussão. Já a melodia caprichosa (algo lírica, algo cómica) que inicia o segundo andamento é totalmente transformada na parte final desse andamento, quando surge nas trompas, trompetes e trombones, tocada com um sentimento de tal forma caricatural e grotesco que o efeito se torna sinistro e ameaçador. Prokofieff é, de resto, um compositor eminentemente melódico, sem dúvida um dos maiores génios melódicos do século XX, como o testemunha a sua 5ª Sinfonia. 


    Daniel Moreira, 2016 

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