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  • 1. Allegro energico, ma non troppo

    2. Andante moderato

    3. Scherzo: Wuchtig – Trio: Altväterisch, grazioso

    4. Finale. Allegro moderato / Allegro energico

    O final do século XIX foi marcado pelo pessimismo generalizado dos intelectuais europeus. A crise financeira global da década de 1890, a incerteza no futuro e a precariedade do presente encontram-se reflectidos no pensamento da época. As críticas ao racionalismo iluminista, encarnadas na filosofia de Schopenhauer e na psicanálise freudiana, tiveram um peso importante no pensamento germânico do final do século XIX e do início do século XX. Obras como Degeneração, do médico e pensador Max Nordau, e O declínio do Ocidente, de Oswald Spengler, ilustram bem essa tendência. A perda de referências é particularmente sentida no Império Austro-Húngaro, cuja desintegração se encontrava eminente e que se efectuou após a Primeira Guerra Mundial. Nesse contexto, os artistas vienenses desenvolveram estratégias específicas para lidar com essa realidade. Assim, alguns pressupostos estéticos do Romantismo foram reforçados e re¬enquadrados através de uma perspectiva positivista clínica, e codificados em movimentos como o Expressionismo. Nesse contexto, a obra de Mahler encontra-se na intersecção entre o tardo-Romantismo e o Modernismo. Isso é reforçado pela forte ligação entre a biografia do compositor e a sua obra, expressão de um sujeito fragmentado e ambíguo.

    A Sinfonia n.º 6foi composta num período em que Mahler se encontrava fortemente ligado aos compositores da Segunda Escola de Viena. Essa aproximação deveu-se a Alma Schindler, com quem o compositor casou em 1902. Alma foi aluna de composição de Alexander von Zemlinsky, um dos principais promotores das novas estéticas, que dirigiu a estreia de algumas das obras mais emblemáticas do Modernismo vienense. Paralelamente, Zemlinsky foi professor de composição de Schoenberg e a sua irmã Mathilde casou com este. Na primeira década do século XX, Mahler, então maestro da Ópera de Viena, tornou-se uma figura tutelar da nova geração de compositores e a sua produção recebeu um novo impulso. Apesar de as suas funções principais de director de orquestra, actividade na qual se notabilizou, requererem estadias prolongadas em Viena, Mahler deslocou-se a várias cidades para dirigir as suas sinfonias. Isso é especialmente visível a partir da Sinfonia n.º 3, estreada em 1902, ano do seu casamento com Alma. Essa obra consolidou a reputação de Mahler enquanto compositor e incentivou as suas deslocações para dirigir as mais prestigiadas orquestras europeias, entre as quais a do Concertgebouw de Amesterdão.

    A Sinfonia n.º 6 foi composta nos Verões de 1903 e 1904, pouco depois do casamento com Alma, uma relação que se revelou simultaneamente renovadora e criadora de instabilidade. Devido às suas obrigações, o compositor aproveitava o encerramento do teatro de ópera para se dedicar à composição. Assim, passava temporadas na sua casa de férias na Caríntia, onde completou diversas obras. Nessa altura, nasceu a segunda filha do casamento com Alma. Nas férias, Mahler compunha de manhã e dedicava-se a actividades ao ar livre da parte da tarde. A Sinfonia n.º 6 foi revista por diversas vezes, tendo a ordem dos seus andamentos sido alterada, questão que ainda hoje levanta dúvidas entre os investigadores. Apesar da aparente felicidade, a obra foi várias vezes apresentada em vida do compositor com o título Trágica, o que pode estar associado à sua proximidade com o pensamento de Nietzsche. A sinfonia foi estreada em Essen a 27 de Maio de 1906. Essen era então a capital da indústria pesada alemã, situada no vale do Ruhr. A apresentação não correu de feição ao tenso Mahler, abalando a sua já frágil auto-estima. Contudo, a sinfonia foi posteriormente reconhecida como uma das suas obras mais importantes, tal como os contemporâneos Kindertotenlieder. A obra é uma das sinfonias mais tradicionais de Mahler, sobretudo o modelo dos três primeiros andamentos. Paralelamente, algum material temático é utilizado nos diversos andamentos da obra, conferindo uma maior coerência interna ao estilo rapsódico do compositor e evidenciando a ambiguidade entre o épico e o trágico.

    O primeiro andamento encontra-se numa forma allegro de sonata, em que o primeiro grupo temático é uma marcha militar pontuada por fanfarras e percussão. Estes traços são frequentes na obra sinfónica de Mahler, que integra e transforma os sons do quotidiano nas suas obras, de forma a enfatizar o seu sentido narrativo. O segundo grupo temático, de carácter cantabile, encarna a pungência das melodias mahlerianas, diferindo contrapontisticamente as resoluções harmónicas. Assim, o compositor cria longos temas em arco cuja tensão é evidente. Alma Mahler referiu que esse tema a representava, o que reforça o cunho autobiográfico da obra. Com uma grande ambiguidade entre os modos maior e menor, o desenvolvimento prossegue numa atmosfera bucólica ilustrada e enfatizada pelo recurso aos chocalhos. Dessa forma, o mundo real e a abstracção sinfónica encontram-se sempre interligados. A reexposição é realizada na íntegra, conduzindo a sinfonia ao segundo andamento. O Andante contrasta temática e tonalmente com o andamento anterior, e concentra-se na apresentação de uma melodia pelos vários naipes da orquestra, ao qual é adicionado um contratema pungente. O Scherzo em forma tripartidaretoma a marcha do primeiro andamento, transformando-a e distorcendo-a numa dança popular. Essa dança é interpolada duas vezes por um Trio ritmicamente irregular, que emerge e submerge na textura de forma discreta, e que pode ter sido influenciado pelas brincadeiras das filhas de Mahler. A sinfonia termina de forma inesperada, num longo e complexo andamento em que a ambiguidade e a hibridez se fundem. Nesse contexto, a forma allegro de sonata e os seus temas são transformados de forma a maximizar o potencial narrativo da obra, atingindo o clímax. Dessa forma, Mahler retoma as texturas dos andamentos anteriores e expande os diversos elementos previamente apresentados. Paralelamente, o som dos sinos enfatiza o contaste e as mudanças abruptas de atmosfera, direccionando o caminho do ouvinte.

     


    João Silva, 2015

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