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  • 1. Allegretto

    2. Moderato (poco allegretto)

    3. Adagio –

    4. Allegro non troppo

     

    Entre os anos de 1924 e 1971, Dmitri Chostakovitch compôs 15 sinfonias. Este legado é considerado um dos mais importantes da história da música ocidental do século XX. A Sinfonia n.º 7, chamada “Leninegrado” (São Petersburgo hoje em dia e no tempo em que Chostakovitch nasceu), foi a 60ª obra do seu catálogo. É das mais conhecidas e teve um grande impacto no reconhecimento internacional da sua obra. A esse facto não são alheias as condições em que decorreram a composição e a estreia, bem como as fortes ligações autobiográficas que se estabeleceram entre a origem da obra, os seus temas de inspiração extramusical e os seus possíveis significados. No entanto, é difícil estabelecer com alguma margem confortável de segurança qual a verdade dos factos. Terá sido a composição da sinfonia influenciada pelos factos históricos do terrível Cerco a Leninegrado? Terá sido a música alvo de uma associação posterior no rescaldo dramático destes acontecimentos e nos quais o compositor esteve envolvido?

     

    O Cerco a Leninegrado resultou de uma ofensiva militar liderada pelos exércitos alemão, italiano e finlandês, durante a Segunda Grande Guerra, contra as tropas soviéticas. Teve início a 8 de Setembro de 1941 e apenas terminou a 27 de Janeiro de 1944. As consequências para a cidade foram devastadoras, resultando num total superior a um milhão e meio de vidas perdidas. Os relatos de horror vão desde a falta de água, assassinatos para roubar alimentos, canibalismo, destruição de escolas e hospitais por bombardeamentos aéreos, entre muitos outros.

    Não sendo certa a data dos primeiros esboços da 7ª Sinfonia, tudo indica que terá sido no Verão de 1941 que Chostakovitch iniciou os trabalhos na cidade de Leninegrado. A 8 de Setembro foi cortado o último acesso por terra à cidade. A 1 de Outubro, sob ordens do governo soviético, Chostakovitch, a sua mulher e os dois filhos foram evacuados da cidade por transporte aéreo. Duas semanas depois, o compositor foi transferido para Kuibishev (hoje Samara), chegando no dia em que a cidade foi temporariamente declarada capital da União Soviética devido ao avanço das tropas nazis em direcção a Moscovo. Foi em Kuibishev que Chostakovitch concluiu a Sinfonia, a 27 de Dezembro de 1941, e que a mesma foi estreada a 5 de Março de 1942 pela Orquestra do Teatro Bolshoi sob a direcção do seu titular Samuil Samosud. A estreia foi transmitida por rádio para toda a União Soviética, sendo depois transmitida em diferido pelas rádios ocidentais. A partitura foi depois enviada por microfilme para a Europa, tendo recebido uma estreia londrina em Junho de 1942, e para os Estados Unidos, onde teve a estreia nova-iorquina no mês seguinte. Na mesma semana, Chostakovitch foi capa da revista Time. Numa operação verdadeiramente heróica, a Orquestra da Rádio de Leninegrado regressou à cidade em Agosto de 1942 para aí apresentar a Sinfonia. A este frenesim e interesse inaudito pela obra, a qual chegou a ser disputada por diferentes orquestras e maestros, não foi alheio o poder simbólico da sinfonia em tempo de guerra.

     

    A Sinfonia tem quatro andamentos e uma duração aproximada de uma hora e um quarto. “Guerra” foi o subtítulo inicial do primeiro andamento, o mais longo de todos. Este Allegretto, que tem início com uma melodia em uníssonos nas cordas, aparentemente sem acompanhamento, é marcado desde o início por ritmos de uma marcha à qual os tímpanos e os trompetes prestam um ar levemente militar. Este primeiro tema é desenvolvido e contrasta efectivamente com um segundo tema muito mais lírico, em tempo mais lento, apresentado pelos primeiros violinos e acompanhado por um movimento calmo e oscilante das violas e violoncelos. É desenvolvido num registo quase pastoral pelas madeiras, com incursões por compassos ternários, dando depois lugar a uma daquelas melodias cromáticas e muito enigmáticas, tão típicas de Chostakovitch, nos violinos. Até agora estamos perante uma tradicional forma-sonata que sempre inaugura as sinfonias. Uma melodia nostálgica na flauta piccolo parece prosseguir para o desenvolvimento, mas eis que surge uma surpresa no desenrolar dramático: o rufar de um tambor apresenta-se a solo. Sobre a sua presença constante, um efeito a lembrar o Bolero de Ravel, as cordas apresentam o tema de uma marcha. O seu carácter não é triste nem alegre. Talvez ligeiro e despreocupado. Sempre com o rufar da caixa segue-se o tema no piccolo, na flauta e piccolo, num original diálogo entre o oboé e o fagote, nos trompetes apoiados numa secção rítmica do piano, nos clarinetes que conversam com o oboé e o corne inglês. Agora apetece dançar a marcha. A música prossegue para um crescendo com a acumulação de mais instrumentos e a presença mais nítida do piano. O tema parece ganhar um optimismo triunfante com esta adição de instrumentos. Chostakovitch afirmou que este tema representava a invasão, a interrupção das tranquilas e pacíficas vidas que os habitantes de Leninegrado levavam. O invasor torna-se progressivamente ameaçador. Sempre com a repetição da mesma melodia, a música ganha coloridos variados com esta orquestração fantástica. Este tema, chamado “de guerra”, foi considerado uma representação genial do invasor e mais tarde, por incrível que pareça, veio a levantar problemas ao compositor, acusado de representar melhor o inimigo do que as próprias tropas soviéticas.

    O segundo andamento, indicado Moderato (poco allegretto), é uma espécie de Scherzo. É o mais curto da sinfonia. Tem início com mais uma melodia simples, quase sem acompanhamento. O seu percurso parece indeciso, o que é também muito típico de Chostakovitch. O seu subtítulo é “Recordações”. O ambiente nostálgico dos diferentes solos, muito em particular do oboé sobre um ostinato rítmico, marca o início. O humor sarcástico de Chostakovitch faz-se notar numa secção mais rápida, quase circense, com a entrada em jogo dos clarinetes. Os metais e as percussões vão contribuir para um ambiente fantástico e festivo.

    O Adagio seguinte parece ter início num grande órgão de uma catedral. Após um coral dos metais, os violinos fazem uma secção em estilo declamatório, seguindo-se, depois, o coral em registo de órgão mas de forma ainda mais grandiosa. O compositor afirmou querer prestar homenagem às paisagens amplas e grandiosas de Leninegrado ao anoitecer. A música progride com um belo solo da flauta. Um episódio mais rápido, a fazer lembrar a música que Prokofieff escreveu para Romeu e Julieta, marca a parte central e mais agitada à qual Chostakovitch vai acrescentar o tema inicial numa técnica de sobreposição. O andamento termina num registo de elegia fúnebre.

    Sem qualquer interrupção passamos para o último andamento, um Allegro non troppo a que Chostakovitch chamou Vitória final. O início é novamente marcado por uma melodia nos violinos sobre um acorde muito sereno nos baixos. Os tímpanos estão discretamente presentes, marcando uma agitação. Apesar do tempo lento, este é um início inquieto. Cedo se atinge um clima tumultuoso. O ritmo é imparável e as fanfarras de metais dão-lhe um ar vitorioso. Uma interrupção dramática para uma secção lenta e sombria leva-nos a pensar naqueles que perderam a vida. A chamada poética da nostalgia, que se associa à escrita do compositor, tem aqui um dos seus melhores momentos. A sinfonia tem de encerrar obrigatoriamente num registo vitorioso. Todas as forças orquestrais se reúnem num final majestoso.

     


    Rui Pereira, 2016 

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