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  • 1. Allegro vivace e con brio

    2. Allegretto scherzando

    3. Tempo di Menuetto

    4. Allegro vivace

     

    Embora os primeiros esboços da 8a Sinfonia de Beethoven datem de 1811, o trabalho de composição concentrou-se mais no Verão de 1812, um período bastante marcante na vida do compositor: em Teplitz, na Boémia, travou finalmente conhecimento com Goethe, escritor de referência para Beethoven e todos os artistas do Romantismo alemão, e escreveu, também nessa altura, a famosa carta à bem-amada imortal, uma carta de amor profundo mas atormentado, com destinatária de identidade incerta.

    Já vários autores chamaram a atenção para a dicotomia estilística frequentemente encontrada em sinfonias de Beethoven com numeração par ou ímpar. Assim, sinfonias como a 3ª, 5ª ou 9ª marcam momentos importantes de ruptura e inovação, prenunciando o Romantismo em música, enquanto a 4ª ou a 8ª Sinfonias remetem para a elegância e optimismo que frequentemente caracterizam o estilo Clássico. Este contraste levou, porventura, a que sinfonias como a 8a sejam interpretadas com menos frequência, e poderá também explicar a recepção menos calorosa que esta teve na sua estreia, em 1814, em Viena. Tanto a composição como a estreia da 7ª e 8ª Sinfonias de Beethoven decorreram em simultâneo. Um crítico da época mencionou inclusive o prejuízo que a junção em concerto possa ter tido para esta última, devido ao impacto da 7ª Sinfonia. O próprio Beethoven, ironicamente, terá comentado que a preferência do público pela 7ª se justificaria pelo facto da 8ª Sinfonia ser bastante superior.

    O espírito alegre e vivaz da 8ª Sinfonia parece, a uma primeira abordagem, remeter para um estilo mais marcado pela elegância e preferência por formas simétricas do Classicismo, numa altura em que obras do próprio Beethoven e de outros compositores seus contemporâneos adoptavam caraterísticas e formas que viriam a marcar o Romantismo musical. É no entanto possível fazer uma leitura desta obra no sentido de detectar possíveis incongruências estilísticas que seriam, já na altura, relativamente óbvias para os melómanos da época. Ao aproximar esta obra dos padrões Clássicos mas, simultaneamente, aplicá-los de forma transgressiva, Beethoven sugere um carácter de ironia que nos remete, em parte, para as sinfonias de Haydn, compositor pelo qual Beethoven tinha uma profunda admiração e com quem estudou.

    A utilização da forma-sonata em todos os andamentos, com a excepção do Minueto, é uma das particularidades que remete para a estrutura preferida dos compositores Clássicos: caracteriza-se pela apresentação de 1 ou 2 temas principais numa secção inicial (exposição), seguida de uma secção de desenvolvimento geralmente baseada nesses mesmos temas, concluindo com o regresso da secção inicial (reexposição). Na 8ª Sinfonia, a simetria deste modelo é quebrada por momentos atípicos, como os ritardandos que pontuam inesperadamente o diálogo entre cordas e madeiras no 2º tema do 1o andamento, ou a repetição obstinada e frequente, num andamento de cariz predominantemente alegre, de um ritmo constituído por 3 notas curtas seguidas de uma nota longa (já presente, aliás, na 5ª Sinfonia).

    A divisão da obra em 4 andamentos segue também a estrutura típica da sinfonia Clássica, mas o 2º andamento, que normalmente seria um andamento lento de cariz lírico, é substituído por um Allegretto Scherzando, que Charles Rosen classificou como um dos derradeiros exemplos de “alegria civilizada” característica do estilo Clássico, precedendo o domínio do sentimento. É possível que este anacronismo tivesse como objetivo o estabelecimento de uma ironia musical ao gosto de Haydn, reforçada pelo diálogo entre naipes agudos (violinos) e graves (violoncelos e contrabaixos) da orquestra. A adopção do formato do Minueto (constituído pelas secções minueto – trio – repetição do minueto) em vez de um scherzo para o 3º andamento é igualmente uma opção historicamente marcada como conservadora, mas que se liberta desse peso convencional pelo recurso a acentuações rítmicas que contrariam o esquema a 3 tempos típico do minueto e, no Trio, pelo contraste presente no diálogo entre trompas e clarinete e o acompanhamento das cordas. O 4º andamento reitera a opção por formatos invulgares ao incluir justaposições inesperadas de secções tonais e timbricamente contrastantes, e terminar com uma longa coda (geralmente uma curta secção final da reexposição) de proporções invulgares, mesmo considerando o contexto da produção sinfónica de Beethoven.

     


    Helena Marinho, 2012

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