Error loading MacroEngine script (file: artista-header.cshtml)
  • 1. Allegro moderato

    2. Andante con moto

    Scherzo (Franz Schubert/Brian Newbould)

     

    Nascido e formado em Viena, Franz Schubert (1797-1828) costuma ser considerado o continuador do legado da trindade formada por Haydn, Mozart e Beethoven. As suas três primeiras sinfonias (cuja numeração é ainda ocasionalmente confusa) seguem o modelo dos clássicos vienenses. Já a quarta e a quinta sinfonia costumam ser consideradas um ponto de viragem no seu percurso criativo, cuja maturidade teria coincidido com os anos de 1821 e 1822. Este foi o momento em que escreveu os dois andamentos conservados da sua Oitava Sinfonia. É no mínimo peculiar estar a descrever nestes termos a obra de um compositor que apenas viveu 30 anos, tendo escrito esses dois andamentos aos 25. A intensidade e a rapidez com que desenvolveu o seu trabalho criativo o justifica.

    Para Schubert, a música dos compositores “clássicos” era um modelo, mas também uma espécie de conforto emocional. Porém, nunca teve, ao longo do seu curto percurso como compositor, dúvidas acerca do valor do seu talento musical. Assim, nesses dois anos e entre outras obras, realizou pelo menos mais três tentativas sinfónicas. Tudo aponta para que a sua referência fosse a celebridade atingida por Beethoven, o qual, nesses anos, estava a escrever a partitura da Nona e ainda lançou, entre 1822 e 1825, os primeiros esboços da que teria sido a sua Décima Sinfonia (esta obra foi também objecto de uma reconstrução, da autoria de Barry Cooper, uma autoridade na história do género sinfónico).

     O interesse mostrado por Schubert pelo género sinfónico constitui um aspecto relevante da sua personalidade artística. Por um lado, desde o final do século XVIII, mais particularmente após Beethoven, projectaram-se no género aspirações institucionais partilhadas por compositores, artistas e público. A sinfonia era vista como um meio de alcançar a fama, não a fortuna: não se podia esperar dela um retorno económico substancial. As sinfonias eram difíceis, tanto do ponto de vista da técnica da composição como da audição, e eram caras de editar e de executar. Cabe, como referência, assinalar que a primeira sinfonia publicada na sua versão orquestral foi a Sétima de Beethoven, em 1816. Entre 1810 e 1860, na Alemanha, apenas foram publicadas 122 sinfonias. O mercado reduzia-se aos amadores mais cultivados. 

    Por outro lado, um dos aspectos mais característicos de Schubert foi o facto de ter desenvolvido, até limites antes desconhecidos, a ideia de que a música podia manifestar a interioridade do ser humano – no seu caso, aliás, expressando tanto a sua personalidade festiva e cativante como rasgos psicológicos que hoje chamaríamos depressivos. A Oitava Sinfonia exibe esta espécie de dupla dimensão emocional, o que lhe confere o seu particular atractivo.

    Uma das leituras mais recentes que se tem feito do Allegro moderato inicial, assinada por Glenn Stanley, incide na sua proximidade com o Don Giovanni de Mozart. Esta ligação, segundo demonstra o musicólogo americano, é de tipo estrutural, mas pode estabelecer-se através da simples audição. Repare-se, por exemplo, na forma como Schubert utiliza a intensificação e o contraste súbito de sonoridades no desenvolvimento dos temas principais e, ainda, como usa expressivamente a cor instrumental dos trombones. A ligação estabelecida com a genial partitura mozartiana dá a chave que explica esta sinfonia como um drama emocional subjectivo, exposto porém mediante um veículo de expressão de sentimentos colectivos. A figura de Don Giovanni, o insaciável sedutor cuja vida transcorre sempre no fio da navalha, pode ser relacionada com as angústias e os excessos que marcaram a biografia do próprio Schubert, mas é também um arquétipo que nos coloca a todos perante o mistério da fugacidade da vida humana.

     

    No que concerne à Oitava Sinfonia, para além dos dois primeiros andamentos concluídos, Schubert apenas deixou o começo do Scherzo. Não existe, portanto, documentação de primeira mão relativa ao Allegro final. O trabalho na partitura deteve-se em Outubro de 1822. Entretanto dedicou-se à composição da ópera Fierrabras, cujo destino era um dos teatros vienenses mais importantes da época. Sabe-se que, poucos meses depois, no Verão de 1823, enviou os mencionados dois andamentos a Graz, agradecido pela sua nomeação como membro honorário da Sociedade Musical da Estíria. É também conhecido que a partitura ficou na posse de Anselm Hüttenbrenner e que esses dois andamentos foram ouvidos pela primeira vez em 1865, tendo sido então completados com o último andamento da Terceira Sinfonia.

    Como alternativa a este finale, no século XIX, usou-se o primeiro entreacto da música de cena da peça teatral Rosamunde, que é o que se utiliza mais habitualmente. A escolha tem algum fundamento porque, para dar resposta a essa encomenda, Schubert reutilizou fragmentos de outras obras. É plausível portanto pensar que esse entreacto, na mesma tonalidade e datado de 1823, tivesse realmente alguma relação com a sinfonia. Também outros andamentos de carácter dançante da mesma obra têm sido utilizados para o mesmo fim, com um efeito bastante diferente. Para completar o habitual esquema em quatro andamentos, Brian Newbould escreveu o Scherzo a partir da cópia completa que Schubert tinha para piano. Apenas a orquestração é obra de Newbould, o qual desenvolveu as ideias a partir de um fragmento que já tinha sido orquestrado por Schubert. O correspondente Trio é da autoria do musicólogo britânico, e foi desenvolvido a partir dos 16 compassos do seu tema inicial, que chegaram a ser escritos igualmente por Schubert.

     


    Teresa Cascudo, 2017 

x
A Fundação Casa da Música usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras. Para obter mais informações ou alterar as suas preferências, prima o botão "Política de Privacidade" abaixo.

Para obter mais informações sobre cookies e o processamento dos seus dados pessoais, consulte a nossa Política de Privacidade e Cookies.
A qualquer altura pode alterar as suas definições de cookies através do link na parte inferior da página.

ACEITAR COOKIES POLÍTICA DE PRIVACIDADE