Error loading MacroEngine script (file: artista-header.cshtml)
  • 1. Alice – Acróstico

    2. Quem é que eu sou?

    3. A lenga­‑longa­‑cauda do Rato

    4. Ralha com o teu menino

    5. Brilha, brilha, estrelita 

    De Unsuk Chin – Compositora em Residência na Casa da Música – ouvimos hoje um ciclo de cinco canções, estreado em 2004 e concebido como uma espécie de estudo preliminar para a composição da sua ópera Alice no País das Maravilhas (estreada três anos mais tarde, em 2007). Tal como a ópera, também o ciclo se baseia nos livros de Lewis Carroll sobre Alice, tendo, aliás, todas as canções do ciclo (excepto a primeira) sido mais tarde incorporadas na ópera. Originalmente orquestral, o ciclo é hoje ouvido num arranjo camerístico (para um grupo reduzido de 11 instrumentistas), da autoria de June Young Joo.

    Apesar de todas as cinco canções terem por origem o mesmo universo de Lewis Carrol – um universo simultaneamente lógico e absurdo, fantástico e humorístico –, elas são radicalmente diferentes umas das outras. A primeira é nostálgica, onírica e encantatória; a segunda representa um estado de confusão e angústia; a terceira é sombria e absurda; a quarta, grotesca e caótica; a quinta, essencialmente lúdica.

    Essas diferenças estão directamente associadas a diferenças no carácter dos próprios textos. Assim, na primeira canção – “Alice – Acróstico” – Chin vai de encontro às imagens oníricas (“A Vida, o que é senão um Sonho?”) e nostálgicas (“Há muito empalideceu aquele céu solarengo / Esmorecem os ecos e as memórias vão morrendo”) que povoam o poema de Carroll (retirado da conclusão de Alice do outro lado do espelho). Fá-lo através das figuras baloiçantes e gentis na flauta e clarinete, que iniciam a canção; de notas agudas, quase isoladas umas das outras e em ritmos irregulares, que aparecem no violino e no piano; e do próprio canto, delicado e fluido, evocando um pouco uma canção infantil. Em geral, a música é relativamente simples e consonante.

    Após esta introdução, ouvimos, nas restantes canções, poemas retirados de diferentes capítulos de Alice no País das Maravilhas. Na segunda canção – “Who in the world am I?” (Quem é que eu sou?) –, Alice, que acaba de chegar ao país das maravilhas, experiencia mudanças radicais – entre outras, no tamanho do seu corpo – que a conduzem a uma crise aguda de identidade. A música, em que predominam sons curtos e secos (com sílabas entrecortadas no canto), tem um carácter nervoso e imprevisível, sugerindo o estado de espírito de Alice (confuso e amedrontado).

    Na terceira canção – “The Tale-Tail of the Mouse” (A lenga-longa-cauda do Rato) – o texto é ainda mais assumidamente absurdo: a Fúria (uma figura mítica) quer levar o rato a julgamento e condená-lo à morte. A essa temática mais sombria (e, claro, absurda) corresponde a canção mais dissonante e atonal até este ponto, com um carácter escuro e ameaçador, associado à utilização do Sprechgesang (técnica vocal expressionista, a meio caminho entre o falado e o cantado) e à presença de uma textura orquestral mais fragmentada (cada instrumento tende a tocar pequenos fragmentos).

    A quarta canção – “Speak roughly to your little boy” (Ralha com o teu menino) – tem o carácter rude e violento que o título sugere. Nela, a duquesa canta uma espécie de paródia – grotesca e terrível – de uma canção de embalar. Toda a música sugere um carácter de fúria e maldade: tanto a linha vocal (alternando notas graves, marcadas e impetuosas, com verdadeiros gritos no registo agudo), como a parte orquestral (também pesada e agressiva).

    O texto da última canção – “Twinkle, twinkle, little star” (Brilha, brilha, estrelita) – é uma paródia da célebre canção infantil inglesa com o mesmo nome. Chin parodia também a música dessa canção, como se poderá reconhecer logo no início. Aos poucos, o carácter inicialmente simples e infantil tende a diluir-se, à medida que a escrita orquestral se torna cada vez mais densa e complexa.

    Em alguns aspectos, SnagS&Snarls poderá parecer uma obra pouco representativa de Unsuk Chin, sobretudo por ser mais acessível e directa que outras obras. Se isso é certo, não é menos verdade que é bem paradigmática de muitos aspectos do seu estilo e atitude estética: a atracção pelo sonho e pelo fantástico; o gosto por jogos; a atracção pelo absurdo; e o diálogo irónico com material pré-existente (especialmente visível na última canção). Já que todos esses aspectos se encontram também nos livros de Lewis Carroll, não é de surpreender que tal afinidade a tenha levado ao encontro de Alice no País das Maravilhas, nomeadamente neste ciclo e na ópera que se lhe seguiu.


    Daniel Moreira, 2014

x
A Fundação Casa da Música usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras. Para obter mais informações ou alterar as suas preferências, prima o botão "Política de Privacidade" abaixo.

Para obter mais informações sobre cookies e o processamento dos seus dados pessoais, consulte a nossa Política de Privacidade e Cookies.
A qualquer altura pode alterar as suas definições de cookies através do link na parte inferior da página.

ACEITAR COOKIES POLÍTICA DE PRIVACIDADE