• 1. Allegro

    2. Andantino

    3. Scherzo

    4. Allegretto

    As três últimas sonatas para piano de Franz Schubert (1797-1828) constituem monumentos maiores da escrita pianística, atingindo dimensões sem precedentes. Foram escritas no mês de Setembro de 1828, facto extraordinário e que representa uma produtividade inacreditável por parte do compositor a dois meses do seu final de vida precoce.

    A Sonata em Lá maior, D. 959, é a maior do conjunto e considerada a mais bem estruturada do ponto de vista formal. Logo na sua abertura é de uma extrema originalidade e testemunha a fecundidade de ideias de Schubert. Começa por afirmar a tonalidade de Lá numa escrita coral, prossegue para uma escrita virtuosística e de grande leveza em arpejos e desemboca numa passagem onde a abordagem coral ganha uma dimensão contrapontística de diálogo permanente entre as mãos. A junção destes elementos dá uma bravura à sonata que faz lembrar muito Beethoven.

    Brahms chamou ao segundo andamento desta sonata uma “canção de embalar a dor”. Trata-se de uma cantilena imensamente triste cantada pela mão direita e acompanhada por um movimento ondulante, na mão esquerda, que muito contribui para uma sensação de movimento perpétuo da música. Alguns contrastes dinâmicos são pungentes e contribuem para o grande dramatismo deste andamento digno de ser comparado com algumas das páginas mais dolorosas de Chopin. O andamento tem uma cadência ao estilo de um recitativo de grande dificuldade técnica. O Scherzo, pleno de alegria e bom humor, tem características fantásticas, parecendo um bailado de feiticeiras com os seus saltos de registo e notas muito curtas. O final é um rondó de inspiração sem limites. Robert Schumann chamou-lhe celestial, aludindo ao tom de despedida e à inspiração divina de uma das mais belas composições de toda a literatura pianística.

     


    Rui Pereira, 2017