Sonata para piano n.º 23 em Fá menor, op. 57, Appassionata

Ludwig van Beethoven, Bona, 16 de Dezembro de 1770 / Viena, 26 de Março de 1827

[1805; c.21min]

  • 1. Allegro assai

    2. Andante con moto

    3. Allegro ma non troppo – Presto

     

     

    Em 1802, Beethoven encontrava-se num período de sério desânimo em virtude do problema de surdez que parecia não ter solução. É desse ano o famoso Testamento de Heiligenstadt, que redigiu naquela localidade austríaca e que espelha a sua angústia existencial e a ausência de esperança provocada pelo problema, que tenderia a agravar-se. Nesse ano e nos seguintes, não obstante o desânimo geral, lidou ainda com uma paixão impossível pela condessa Giulietta Guicciardi, sua aluna de piano a quem dedicaria a Sonata para piano n.º 14, Quasi una fantasia (Ao Luar). Não obstante as dificuldades, o compositor entraria, até 1805, num período intenso de produção musical, afirmando novas facetas da sua identidade musical. Deste período constam as três primeiras sinfonias – entre as quais a Eroica –, a Sonata para piano Waldstein, o Concerto Triplo, entre outras obras que, no seu conjunto, com maior ou menor discussão, valeriam a este período o epíteto de Heróico.

    No repertório para piano deste período é de destacar o ampliar das possibilidades do idioma do instrumento, com a exploração não apenas do contraste de intensidades, mas também da oposição frequente entre registo grave e agudo. Isto deve-se também ao facto de, em 1803, Beethoven ter recebido um piano Érard, com cinco oitavas e meia e mecanismo de inspiração inglesa, que lhe possibilitava a concretização de novas ideias musicais para as suas obras. Sabe-se que considerava a mecânica do instrumento, em particular o teclado, pesada e dura, pelo que foi solicitando vários ajustes que se tornaram fundamentais para o seu processo criativo e consequente desenvolvimento do repertório pianístico.

    Beethoven iniciou a composição da Sonata n.º 23 em 1804, terminando-a em finais de 1805. Para o compositor esta era a sonata mais desafiante que tinha composto e permaneceria, durante alguns anos, como um dos bastiões do seu repertório pianístico. O título, Appassionata, foi posteriormente atribuído pelo editor Cranz por ocasião da publicação de um dueto para piano, em 1838. A sonata divide-se em três andamentos de carácter distinto. Czerny, que foi aluno de Beethoven e professor de Franz Liszt, diria, sobre a Appassionata, tratar-se da “mais perfeita execução de um plano poderoso e colossal”, pelo modo como Beethoven explora as várias dimensões expressivas do piano.

    O primeiro andamento inicia-se de forma quase enigmática, introduzindo o ouvinte a um mundo interior de grande profundidade. O contraste surge pouco depois com arpejos quebrados na mão direita, em forte, realçando também a oposição entre o registo mais agudo e o grave. Ao nível estrutural, Beethoven repensa o modelo clássico tripartido ao omitir a reexposição e introduzir uma coda consideravelmente longa que explora o carácter de improvisação através de arpejos que percorrem o teclado. Se o primeiro andamento é revelador da afirmação da força interior e do carácter mais impetuoso de Beethoven, o segundo transporta-nos para um cenário quase pastoral. É marcado por uma sequência de acordes que, na sua simplicidade, formam o tema que será depois sujeito a quatro variações distintas, procurando, na sua beleza, uma certa transcendência e elevação. O ataque súbito ao último andamento, com a repetição feroz de acordes de sétima diminuta, recupera o carácter agitado e, de certo modo, conflituante do primeiro andamento. É de realçar a sequência de notas rápidas que se aproxima de um movimento perpétuo, explorado ao longo do andamento e também nas cadências que surgem, num quadro sonoro tenso e marcado pelo elemento trágico – como fica explícito, por exemplo, na rápida coda final.

     


    Pedro Russo Moreira, 2018 

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