Sonata n.º 32 em Dó menor, op. 111

Ludwig van Beethoven, Bona, 16 de Dezembro de 1770 / Viena, 26 de Março de 1827

[1822; c.25min]

  • 1. Maestoso – Allegro con brio ed appassionato

    2. Arietta: Adagio molto, semplice e cantabile

     

    A Sonata n.º 32 em Dó menor, op. 111, foi terminada a 13 de Janeiro de 1822, imediatamente depois da op. 109 e da op. 110, com Beethoven já completamente surdo. A derradeira obra para piano do compositor de Bona representa o culminar da reinvenção do género sonata. Hans von Bülow considera-a a mais elevada manifestação do génio de Beethoven. Do ponto de vista pianístico, a Sonata op. 111, juntamente com as três anteriores (opp. 106, 109 e 110), representa o pináculo do virtuosismo instrumental.

    Beethoven escreve apenas dois andamentos (como já havia feito nas opp. 90 e 109): uma forma-sonata que oscila entre a fantasia e a fugueta, no Maestoso – Allegro con brio ed appassionato; e cinco variações na Arietta: Adagio molto semplice cantabile. Esta estrutura formal escandalizou o mundo musical da época que considerava a “tradicional” forma tripartida como sendo a forma canónica para encerrar um ciclo de obras desta dimensão.

    Parafraseando Alfred Brendel, os dois andamentos enfrentam-se como tese e antítese. O Maestoso do primeiro andamento tem subjacente um clima de tensão, de inquietação, de raiva, expressos musicalmente por acordes e ritmos pontuados que se desenvolvem caprichosamente em forma de fantasia. O Allegro con brio ed appassionato mantém a tensão mas a raiva cede o lugar à dor através da semente temática formada pelos intervalos de terceira menor, quarta diminuta e sétima menor que serve de base a um embrião de fuga.

    As palavras semplice e cantabile do segundo andamento indicam o caminho para um ambiente de simplicidade e serenidade. Beethoven repete na última sonata a “picardia” tonal que utilizou na op. 90: um segundo andamento no modo maior numa sonata com uma tonalidade menor. Recorro novamente às palavras do pianista Alfred Brendel que afirma que “na literatura pianística há poucas obras nas quais se toque tão de perto o elemento místico” como acontece aqui. O tema da Arietta é uma melodia que emana suavidade e paz apresentada numa espécie de coral a quatro vozes. Beethoven escreve cinco variações dessa melodia. A terceira é a mais virtuosística e a mais brilhante de todas, pelos arpejos em movimento contrário que preenchem os registos grave e agudo do teclado. Mas a subtileza e o requinte da escrita de Beethoven estão bem patentes na quinta e última variação, onde o tema da Arietta é tocado na região aguda do piano, em pianissimo, entre um trilo e um trémulo. Uma sucessão de fusas nas duas mãos conduz ao acorde de Dó maior com que a obra termina. “A partir daqui, sabemos que o silêncio que se acaba de abrir é mais importante do que o som que nos conduziu até ele” (Alfred Brendel).

     


    Ana Maria Liberal, 2017