Spam!, para voz e ensemble

Luís Tinoco, Lisboa, 16 de julho de 1969

[2009; c.16min]

  • 1. A living metaphor flying over –

    2. Check your art sense

    3. Why I contacted you

    4. Go, George, go!

    5. Dr. Maxman

     

    Um homem-bala disparado do México para os EUA (primeiro andamento); os funcionários da Câmara de Frankfurt a confundirem uma obra de arte com lixo (segundo andamento); uma viúva desesperada que propõe transferir cinco milhões de dólares para a nossa conta bancária (terceiro andamento); George W. Bush revelando ter seguido um apelo divino ao invadir o Afeganistão e o Iraque (quarto andamento); e publicidade a uns comprimidos que fazem aumentar o tamanho do pénis (quinto andamento): eis a improvável forma – e o improvável conteúdo – da obra que hoje ouvimos de Luís Tinoco.

    O título – Spam! – esclarece a proveniência de tão insólitos materiais: trata-se de uma colectânea de mensagens de spam – essas mensagens irrelevantes e inapropriadas de correio electrónico que todos nós regularmente recebemos, contendo desde publicidade enganosa a tentativas de invadir o nosso computador, passando também por notícias estapafúrdias e ofertas de somas avultadas de dinheiro. No caso, Tinoco põe em música mensagens de spam que ele próprio foi recebendo na sua caixa de e-mail. O texto é alternadamente dito ou cantado por um barítono, acompanhado por um ensemble de 16 instrumentistas.

    A música de Tinoco é, de uma ponta à outra, alucinantemente humorística. Os recursos são muito diversificados: ora o humor vem da citação de uma música patriótica muito conhecida, que não esperaríamos encontrar num concerto de música contemporânea (primeiro andamento); ora de sons pré-gravados, que inesperadamente nos transportam para outros ambientes (primeiro e quarto andamentos); ora de ritmos já em si animados, enérgicos e espirituosos (segundo e quarto andamentos); ora da incongruência entre o carácter sombrio da música e o tom, pretensamente lamentoso, mas na realidade ridículo, do e-mail (terceiro andamento); ora de um crescendo de tal forma alucinado e excessivo que só pode – em conjunção com o texto – provocar a gargalhada (quinto andamento).

    A obra foi composta em 2009, fruto de um desafio muito particular lançado a Luís Tinoco pela OrchestrUtopica. Ao compositor cabia programar um concerto centrado em música americana e, ao mesmo tempo, escrever uma obra que de algum modo se relacionasse com essa música. Tinoco escolheu peças de Augusta Read Thomas, Lee Hyla, John Adams e Frank Zappa – «compositores com quem partilho afinidades», no dizer do próprio. E há, sem dúvida, um lado americano nesta obra de Tinoco: da atitude de certa forma experimental em trabalhar materiais de baixa “literatura” às pulsações minimalistas de alguns dos andamentos, sem esquecer a evocação da música de Zappa, na qual o humor é constante.

     


    Daniel Moreira, 2017