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  • 1. Montéquios e Capuletos

    2. Menina Julieta

    3. Madrigal

    4. Minueto

    5. Máscaras

    6. Romeu e Julieta (Cena da Varanda)

    7. Morte de Teobaldo

    8. Frei Lourenço

    9. Romeu e Julieta antes da partida

    10. Romeu no túmulo de Julieta

     

    Sergei Prokofieff foi educado no Conservatório de São Petersburgo de acordo com a tradição tardo-romântica russa. Contudo, a instabilidade política que desaguou na Revolução Soviética teve um grande impacte na sua carreira, levando-o a sair do país e a trabalhar nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Nesses espaços contactou com os modernismos do período Entre Guerras e interagiu com importantes agentes musicais. Contudo, o desenraizamento fez-se sentir e, após alguns contactos, Prokofieff regressou em 1936 à terra natal, agora chamada de União Soviética. Nessa altura, o panorama artístico do país encontrava-se num período de transição. Após a Revolução Soviética, o novo poder promoveu algumas tendências modernistas, como forma de associar uma arte de vanguarda a uma sociedade moderna. Contudo, desenvolveu-se outra linha de acção em que o que era valorizado era uma arte mais compreensível para as pessoas, inspirada na música popular e nos cânticos revolucionários. Com a afirmação de Estaline no poder, este último ramo foi favorecido e desenvolvido. Assim, a valorização de uma arte compreensível, inspirada em temas revolucionários e musicalmente devedora do tardo-romantismo russo tornou-se a cartilha oficial do regime. Isso trouxe dissabores a compositores como Prokofieff e Chostakovich, sendo que algumas das suas obras foram oficialmente denunciadas como “formalistas”. Por um lado, a politização da arte traduziu-se na criação de obras enaltecedoras da revolução e do socialismo, absorvendo o esforço criativo de muitas pessoas. Por outro lado, obras sem carácter político, como Romeu e Julieta, poderiam ser interpretadas como concessões a uma arte associada à burguesia oitocentista. O recurso a uma obra que fazia parte da cartilha da formação intelectual burguesa durante o Romantismo num período de promoção de uma arte proletária contribuiu para as peripécias associadas à sua produção.

    O percurso de Romeu e Julieta, portanto, foi tudo menos simples. Composto entre 1935 e 1936, o bailado foi rejeitado pelo Ballet Bolshoi e pela Escola de Coreografia de Leninegrado. A sua complexidade musical pode ter estado na origem dessa recusa. Entretanto, Prokofieff extraiu duas suites orquestrais da obra e um conjunto de peças para piano, que apresentou antes da estreia do bailado. A sua primeira apresentação deu-se em Brno, a 30 de Dezembro de 1938. O facto de a obra de um proeminente compositor soviético ter sido estreada na então Checoslováquia por uma companhia local é revelador das questões com as quais Prokofieff se debatia na altura. Por exemplo, a própria Cantata para o Vigésimo Aniversário da Revolução de Outubro, terminada em 1937, só foi dada a ouvir muito depois da morte de Estaline. A primeira apresentação soviética de Romeu e Julieta deu-se em Leninegrado, a 11 de Janeiro de 1940. Após algumas alterações à partitura sugeridas pelo coreógrafo Leonid Lavrovski e devido à excelente prestação de Galina Ulanova, uma herdeira da escola do Bailado Imperial Russo – entretanto recontextualizado pelo novo poder –, no papel de Julieta, o bailado transformou-se num emblema da dança clássica soviética.

     

    Esta suite inclui andamentos das duas suites orquestrais preparadas por Prokofieff. Começa com o número inicial da segunda suite, Montéquios e Capuletos. Em forma tripartida, tem início com uma introdução lenta em que a dissonância prepara uma textura de marcha, levada a extremos dinâmicos pelos instrumentos graves de sopro. A secção B é um episódio lírico e melódico, associado à presença de Julieta no baile. O regresso da textura de marcha é introduzido pelo saxofone tenor, instrumento raramente utilizado em orquestra sinfónica.

    Menina Julieta é um episódio lúdico em forma A-B-A, retirado da segunda suite. A leveza da textura da secção A enfatiza a caracterização da jovem e cândida Julieta que, na secção intermédia, é apresentada na forma de uma mulher contemplativa a despontar para o amor.

    O Madrigal pertence à cena do baile, antes de Romeu ter sido descoberto por Teobaldo, primo de Julieta. O seu carácter lírico remete para um contexto bucólico e pastoril.

    O Minueto pertence à primeira suitee a sua atmosfera de dança cortês é usada para descrever a entrada dos convidados no baile oferecido pelos Capuletos. Alguns episódios solistas de cariz cantabile são interpolados na textura da dança social.

    Máscaras pertence igualmente à primeira suite e o seu carácter misterioso de marcha em forma A-B-A reflecte a cena em que Romeu e Mercúcio frequentam o baile de máscaras dos Capuletos. O andamento termina com uma secção lírica, representando o primeiro encontro entre Romeu e Julieta e o amor à primeira vista do Montéquio pela jovem Capuleto.

    A música prossegue com a famosa cena do encontro entre Romeu e Julieta à varanda. A atmosfera etérea, com a preponderância de melodias angulares nas cordas agudas, reflecte a terna ligação entre os amantes.

    O andamento seguinte, Morte de Teobaldo, pertence à primeira suitee inicia-se com uma atmosfera brincalhona. Contudo, a tragédia dar-se-á em breve e a tensão aumenta. Ao recusar travar um duelo com Teobaldo, Romeu faz com que Mercúcio tome o seu lugar. Teobaldo mata Mercúcio e, posteriormente, Romeu mata Teobaldo. Esse momento está representado na escalada de intensidade dramática, recorrendo ao ostinato e ao contraponto dissonante onde pontificam os sopros e a percussão.

    Os restantes andamentos pertencem à segunda suite. A cena em que Romeu se encontra com Frei Lourenço tem um carácter lírico e expressivo, cedendo lugar a um andamento que representa o encontro dos amantes antes da separação. A melodia principal, de carácter contemplativo e estático, é apresentada pela flauta e complementada pelos violinos. Seguidamente, um episódio de ritmo regular, como o tique-taque de um relógio, prepara a tragédia final.

    A suite termina com a visita de Romeu ao túmulo de Julieta, num episódio que mistura as lembranças do romance com o pathos do seu fim trágico. 

     


    João Silva, 2017 

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