The Moth requiem, para 12 vozes femininas, três harpas e flauta alto

Harrison Birtwistle , Accrington (Lancashire), 15 de Julho de 1934

[2012]

  • Plaf! O que foi? Uma traça… A situação é certamente familiar. Uma traça é sinónimo de roupa de malha esburacada e faz lembrar o cheiro a lavanda dos armários. A Internet oferece dezenas de conselhos para as espantar e também para acabar com elas, muitos deles “naturais”, e os supermercados facilitam igualmente a tarefa, oferecendo nas suas prateleiras insecticidas e coloridas substâncias que as combatem. Porém, o termo traça referido aos insectos que se alimentam das fibras dos tecidos em seda, lã, caxemira, angorá e pele, e, de forma figurada, a diversas situações, todas elas negativas, não  é aquele ao qual se refere o título deste Requiem, que se dedica, na realidade, ao género das mariposas nocturnas.

    A alusão inicial ao nosso familiar quotidiano não é, porém, apenas um expediente retórico. Serve como ponto de referência para sublinhar até que ponto estamos afastados da estonteante variedade do mundo natural, bem ilustrada nas dezenas de famílias de mariposas identificadas pela entomologia cujas características desconhecemos. Aliás, por um lado, a origem do texto que serviu de ponto de partida a Harrison Birtwistle para escrever a música deste Requiem enquadra-se num contexto doméstico onde, justamente, uma mariposa introduziu, por instantes, o desassossego. Robin Blaser, o poeta que inspirou Birtwistle, escreveu The Moth Poem na década de 60 inspirado, por sua vez, pelos sons misteriosos que o tinham intrigado no meio da noite, depois de descobrir que eram produzidos por uma mariposa presa dentro do piano. Blaser transforma esta mariposa que quer escapar da caixa que a encerra numa metáfora do poeta e da sua luta criativa, não apenas com e contra as palavras, mas também contra a indiferença de quem o rodeia.

    Birtwistle, por seu turno, adiciona mais uma camada de significado à metáfora da mariposa, associando a imagem que seduziu Blaser à fragilidade da vida e à passagem inexorável do tempo. Sublinha esta ideia introduzindo, no texto, os nomes em latim de algumas famílias de mariposas que estão actualmente perto da extinção, algumas tão belas como a leucodonia bicoloria, ou que já desapareceram, como é o caso da euclemensia, cuja existência só está agora documentada em museus de história natural. Outras, como a eremobina pabulatricula, embora presentes na Europa Continental ou em Ásia, não são vistas no Reino Unido há décadas. O compositor revisita um tópico eterno, dando aliás continuidade à sua vontade, já mostrada em composições anteriores, de estabelecer vínculos entre o passado e o presente. Encontram-se neste Requiem ecos do mito e do rito característicos da cultura grega antiga, da música medieval e das alegorias de Peter Bruegel o Velho, apresentadas sob uma linguagem musical modernista que revela a influência de compositores como Stravinski, Debussy ou Messiaen no estilo de Birtwistle.

    Em The Moth Requiem, a enumeração sucessiva de termos em latim coloca a questão da função meramente ritual e encantatória que também pode ter a linguagem verbal. Esta sucessão estrutura também a composição, que apresenta diferentes texturas à medida que cada mariposa vai sendo introduzida pelas doze vozes femininas que constituem o coro. Na parte central é introduzida a poesia de Blaser, servindo-se neste ponto Birtwistle da técnica medieval do hoquetus: o texto e a linha melódica vão sendo sucessivamente distribuídos por diferentes partes. A instrumentação para flauta alto e três harpas contribui, juntamente com o uso exclusivo de vozes femininas, para uma imagem sonora que poderíamos qualificar de frágil e etérea. A parte de flauta tem um papel protagonista, não apenas pela sua peculiar cor tímbrica e pelo virtuosismo da sua escrita, mas também pelo papel, quase teatral, que Birtwistle parece querer atribuir-lhe: a flauta em combinação com a harpa constitui um tópico sonoro associado à Antiguidade Clássica que aqui facilmente nos pode transportar a imagem da mariposa presa, a querer escapar da sua prisão, tal como a alma, que na Antiguidade se representava por uma borboleta, também aspira à liberdade e à transcendência.

     


    Teresa Cascudo, 2017