• 1. Dança Russa

    2. Na Cela de Petruchka

    3. A Semana Gorda

    Sempre em Paris, ocorreu, em 1911, a estreia de Petruchka, o célebre bailado de Igor Stravinski com coreografia de Fokine e uma memorável interpretação, no papel principal, do bailarino Vaslav Nijinski. A primeira ideia na origem desta obra tinha sido, contudo, como recordava o próprio compositor, a de “uma peça orquestral na qual o piano tivesse a parte principal – uma espécie de Konzertstück” inspirada pela “imagem de uma marioneta, de repente dotada de vida, que fazia exasperar a paciência da orquestra com cascadas diabólicas de arpejos”. Todavia, quando Diaghilev, o famoso empresário dos Ballets Russes, foi visitar o compositor para verificar em que ponto estava a composição daquela que deveria vir a ser A Sagração da Primavera, ficou entusiasmado ao ouvir algumas partes da obra ao piano e, intuindo as potencialidades de realização cénica, convenceu Stravinski a transformá-la numa acção coreográfica. O argumento do bailado, elaborado em estreita colaboração com o pintor e cenógrafo Besnois, acabará por tratar das vicissitudes humanas e sentimentais de uma série de marionetas de uma feira popular de Carnaval, em São Petersburgo: Petruchka, infeliz apaixonado pela Bailarina, e morto, no final, pelo seu rival no amor, o Mouro.

    Foi assim que entrou também este projecto na profícua e prolífera colaboração entre a prestigiada companhia de bailado e o compositor, sodalício que determinará – entre sucessos e escândalos – a projecção do músico a nível internacional e que contribuirá para facilitar os seus contactos com muitos dos protagonistas da cultura da época. Embora o próprio compositor tivesse tentado redimensionar, mais tarde, a importância desta experiência, a prática do trabalho em equipa com os artistas que se concentravam à volta dos Ballets Russes (com o ideal de uma colaboração entre todas as artes, de forma a que, cada uma delas, em plena e recíproca liberdade, pudesse desenvolver ao máximo as suas potencialidades) parece ter tido um peso determinante também na constituição da técnica de “montagem” que, para além dos diversos avanços aos quais chegará a música de Stravinski ao longo do tempo, permanecerá uma constante na sua maneira de compor.

    Com um percurso inverso ao que viu o nascimento do bailado, os Três andamentos de Petruchka para piano surgiram, ao invés, graças às insistências do pianista Arthur Rubinstein, que convenceu o compositor a realizar, pagando-lhe 5.000 francos, uma versão para instrumento solista. Stravinski aceitou afirmando querer “dar aos virtuosos do piano um peça de uma certa amplitude que lhes permitisse alargar o seu repertório moderno e demonstrar uma técnica brilhante”. Os quatro quadros da versão coreográfica foram reduzidos a 3 andamentos (Dança Russa, Na Cela de Petruchka, A Semana Gorda) resultando a parte do piano, sobretudo nos primeiros dois, substancialmente a mesma da partitura orquestral.

    A riqueza da invenção musical stravinskiana, quer em recriar o ambiente da feira popular (graças também a uma original utilização de melodias pré-existentes tiradas do folclore e da “música de uso”), quer em reproduzir a conflitualidade entre a dimensão humana e a de marioneta do protagonista (por exemplo, com o efeito bitonal correspondente ao que se realiza tocando contemporaneamente um acorde de teclas brancas e um de teclas pretas no piano), sobressai com surpreendente originalidade ao longo de toda a partitura. A utilização livre da dissonância, a vitalidade e riqueza do ritmo emancipado da divisão métrica tradicional, uma organização estrutural desvinculada do conceito de desenvolvimento habitual, e uma utilização percutida do piano para realizar efeitos estridentes e nervosos marcam, com esta obra, a definitiva entrada numa nova época do virtuosismo pianístico.

     


    Francesco Esposito , 2015

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