Três peças para orquestra, op.6

Alban Berg, Viena, 09 de Fevereiro de 1885 / Viena, 24 de Dezembro de 1935

[1915; c.20min.]

  • 1. Präludium

    2. Reigen

    3. Marsch

    Um dos grandes problemas do afastamento do sistema tonal empreendido pela Segunda Escola de Viena foi a dificuldade em produzir obras de longa duração. Dessa forma, as peças que precederam o desenvolvimento do sistema serial dodecafónico tendem a ter um carácter aforístico. Mesmo as obras de maior extensão resultam da soma de pequenos episódios e do seu entrelaçamento contrapontístico. Contudo, há algumas excepções, como algumas obras de Alban Berg. Aluno de Schoenberg, Berg tentou conciliar os modelos macro-formais narrativos do Romantismo tardio, representado pela abordagem sinfónica mahleriana, com o atonalismo. Paralelamente, o fascínio pelo hibridismo é um aspecto essencial na sua produção. Assim, as Três peças para orquestra apresentam-se como uma obra marcante da Segunda Escola de Viena. Escritas entre 1913 e 1915, as duas primeiras foram estreadas em Berlim a 5 de Junho de 1923, sob a direcção do seu colega Anton Webern. A estreia integral deu-se em Oldenburg a 14 de Abril de 1930. Esse desfasamento entre as datas de composição e de estreia é emblemático da produção da Segunda Escola de Viena.

    A presença de Berg na estreia da Sinfonia n.º 9 de Gustav Mahler em 1912 foi determinante na concepção das Três peças. Por exemplo, o compositor emprega diversos topoi mahlerianos nas suas peças, como as danças tradicionais austríacas apresentadas num contexto de distorção temática ou as marchas de carácter grotesco. Inclusivamente, a última peça ecoa a Sinfonia n.º 6 de Mahler, com o uso do martelo. Dois anos depois dessa estreia, Berg assistiu à apresentação das Cinco peças para orquestra de Schoenberg em Amesterdão. Neste ponto, a tentativa empreendida por si de basear o material musical da obra em pequenas unidades sonoras estáticas é mais próximo do Modernismo. De forma a criar uma obra de maior envergadura e coerência, Berg compõe alguns temas e motivos que são apresentados em todas as peças. Apesar de grande parte desses motivos emergir da mesma forma ao longo da obra, essa apresentação é feita de forma transformada em diversas ocasiões. Assim, o atematismo atonal dá lugar a uma concepção da forma que é simultaneamente cíclica e transformativa.

    O Präludium encontra-se numa forma em arco ABA e inicia-se com sons de altura indefinida tocados pela percussão. Esse quase murmúrio vai-se transformando progressivamente no material temático da obra. Assim, o ritmo é transformado em melodia. A peça seguinte, Reigen, funciona como a fusão dos dois andamentos intermédios de uma sinfonia – o scherzo e o andamento lento. Nesse sentido, emerge a tendência patente na Segunda Escola de Viena para a condensação e abreviação das formas musicais do Classicismo e do Romantismo. A obra termina com um longo andamento que recapitula o material temático dos anteriores, revelando o virtuosismo do compositor na articulação de uma forma complexa num contexto de atonalidade. No seu op. 6, sobressai a arquitectura das grandes formas tardo-românticas, de carácter híbrido, com o trabalho temático que transforma e recapitula materiais em simultâneo.

     


    João Silva, 2016