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  • Como protagonista, juntamente com o seu conterrâneo Harrison Birtwistle, da introdução em Inglaterra, a partir de meados da década de 1950, das ideias da vanguarda europeia do pós-guerra (as ideias de Boulez, Stockhausen e companhia), e como compositor especialmente virulento na defesa dos ideais modernistas, nessa época, foi surpreendente para muitos o empenho com que, a partir de meados da década de 60, cada vez mais se dedicou à composição para orquestra (a mais tradicional e convencional das formações). Mais surpreendente ainda foi quando, em 1976, apresentou uma obra orquestral com o título Sinfonia, quando o género parecia interessar apenas a compositores “conservadores” como Chostakovitch, Henze ou Panufnik. E mais surpreendente ainda foi quando a essa primeira sinfonia se seguiram outras nove, a última das quais terminada em 2013, pouco tempo antes da sua morte (em 2016). Teria Maxwell Davies traído os ideais modernistas?

    A história é bem mais complexa do que isso. Ao contrário de um Penderecki, para quem começar a escrever sinfonias, na década de 70, representava um assumido regresso à tradição e um corte com as vanguardas (a que ele tinha aderido até então), já para Maxwell Davies a chegada à escrita orquestral e sinfónica foi o resultado – quase inevitável – da evolução do seu estilo modernista ao longo dos anos 60. O que aconteceu foi que Davies se foi cada vez mais interessando pela grande forma, por gestos musicais longos, que demoram tempo a instalar-se e se transformam de forma muito gradual. Ao mesmo tempo apercebeu-se de que essa vastidão temporal implicava também um espaço sonoro mais vasto: o da orquestra, por oposição às formações de câmara com que tinha, até aí, sobretudo trabalhado.

    A segunda obra de Maxwell Davies que ouvimos neste festival, Worldes Blis (composta entre 1966 e 1969), desempenhou um papel fundamental nessa evolução. Com um total de cerca de 40 minutos, tocados sem qualquer interrupção (como se fosse um único andamento), esta obra orquestral tem já, com essa escala temporal tão ampla, uma lógica quase sinfónica. Na verdade, após a estreia, em 1969, Maxwell Davies retirou temporariamente a peça de circulação, julgando-a demasiado curta (!), como se apenas uma parte das potencialidades do material musical tivesse sido explorada. Quatro anos depois, ao responder a uma encomenda da Philarmonia Orchestra, começaria por querer compor um único andamento, como em Worldes Blis, mas ficaria satisfeito apenas após terminar quatro, acabando por cunhar a nova obra como Sinfonia n.º 1.

    Como é frequente na música de Maxwell Davies, também a obra incluída neste programa é construída a partir de música antiga, neste caso uma melodia medieval inglesa, de autor anónimo do século XIII: todo o material orquestral deriva dessa melodia, ainda que muitas vezes de formas não directamente reconhecíveis. Aliás, essa melodia aparece explicitamente no final da obra, tocada pelos sinos, num grandioso clímax: como nos diz o compositor, “toda a obra pode ser ouvida como uma busca por esse material pré-existente, num único gesto (…) até ao seu aparecimento nos sinos”.

    Em 1970 – pouco tempo depois de compor Worldes Blis – Maxwell Davies visitou as ilhas Orkney, ao largo da costa escocesa, no extremo norte da Grã-Bretanha, logo se apaixonando por aquele ambiente vasto e isolado. Decidiu, de imediato, ir para lá viver, encontrando assim o ambiente ideal para compor (aí permaneceria até ao final da sua vida). O que Davies lá encontrou – esse “sentimento de um espaço enorme, de distâncias e perspectivas vastas, de um sentido de solidão numa grande paisagem” – foi como que a materialização física do espaço sonoro – igualmente vasto e colossal – da peça orquestral em programa. Diz o próprio compositor que “poderá ajudar ao ouvinte pouco familiarizado com o estilo [de Worldes Blis] relacionar a sua arquitectura com as lentas ondulações da paisagem de Orkney (…) com as suas mudanças mínimas enquanto se caminha (quase totalmente sozinho!) ao longo de muitos quilómetros quadrados de colinas, mas com um sentido constantemente modulado pela luz, pelas nuvens e pelos reflexos do mar. (…) A ilha parece ser uma extensão (…) do território explorado e cartografado em Worldes Blis”.

     


    Daniel Moreira, 2017 

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