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  • Segundo Chevalier e Gherbrand, no seu Dicionário de símbolos, o mar é «o símbolo da dinâmica da vida. (...) Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informais e as realidades formais, uma situação de ambivalência, que é a da incerteza, da dúvida, da indecisão, e que pode terminar bem ou mal. Daí que o mar seja ao mesmo tempo a imagem da vida e da morte (...) cujo símbolo geral se aproxima do da água». É esse estado transitório, essa ambivalência e incerteza do desenlace que podemos encontrar plasmados na Abertura em Ré maior op.27, Mar calmo e viagem próspera de Felix Mendelssohn. A obra foi escrita em 1828 e pensada, tal como a Cantata op.112 de Beethoven, a partir de dois breves poemas de Goethe – Meeresstille e Glückliche Fahrt – cuja obra o jovem compositor, detentor da mais refinada e selectiva educação que seria possível obter na altura e em contacto regular com a fina flor do meio literário e intelectual alemão, conhecia certamente a fundo.

    Mas, ao contrário de Beethoven, Mendelssohn dispensou a componente vocal para se concentrar unicamente na orquestra, criando uma obra com uma estrutura bipartida Adagio – Allegro, configurando, assim, dois quadros correspondentes aos dois poemas. Estes foram reproduzidos no início da partitura, num gesto que tornou inequívoco o carácter programático da obra, que foi estreada numa sessão privada em Berlim em 1829 e, publicamente, em 1832, na Singakademie da mesma cidade, sempre sob a direcção do próprio Mendelssohn.

    No Adagio, a calma das águas sugere um bom presságio e nada perturba, aparentemente, a travessia que o marinheiro empreende. Contudo, o mar apresenta aqui a sua faceta perversa: a imobilidade da água começa, pouco a pouco, a ser a fonte de um sentimento de inquietação, visto que o silêncio assustador da tranquilidade do mar pode ser o prenúncio da condenação da embarcação que, não podendo assim alcançar o seu destino, se transforma numa prisão sobre a qual pairam a solidão e a morte potencial, pondo em causa uma viagem próspera. É com alívio que o vento começa a fazer‑se sentir, agitando as vagas – passagem para o Allegro –, e o tripulante aproveita o momento para orientar o barco e começa a ver terra, o «longe a aproximar‑se » e o final feliz de um regresso.

    Musicalmente, para além do contraste estabelecido pela escolha dos andamentos para cada um dos poemas, em que o lento se aplica à primeira parte e o rápido à segunda, observa‑se que, no Adagio, o compositor opta por um efectivo instrumental concentrado sobretudo nas cordas e com insistência no registo grave. Destacam‑se frases longas com adiamentos de resoluções tonais ou em que o acorde conclusivo é, também, aquele que inicia a frase seguinte, contribuindo, não obstante o uso tendencialmente exclusivista do modo maior, para conferir uma atmosfera cada vez mais opressiva. A passagem para o Allegro faz‑se através de um solo de flauta e uma clara ênfase nos sopros em geral, uma orquestra que desperta na sua totalidade, visto que agora o compositor não hesita no uso de toda a paleta sonora à sua disposição, incluindo a percussão, assim como uma maior diversidade de técnicas nas cordas (como o pizzicato): o marinheiro aproveitando todos os recursos para levar a bom porto a sua embarcação. Tal é algo que não faz sem percalços, como atesta a dimensão do andamento e os gestos dramáticos que nele encontramos, a incerteza da chegada a salvo sempre a pairar no território, por definição instável, do mar.

     


    Bárbara Villalobos [2007]

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