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  • 1. Das profundezas do abismo eu grito para ti, Senhor: Senhor escuta a minha voz!

    2. Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais; a morte não tem mais império sobre ele

    3. Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus...

    4. Ressuscitarão gloriosos, com um nome novo, no concerto alegre das estrelas e aclamações dos filhos de Deus

    5. E ouvi a voz de uma multidão imensa...

    Dos mais originais compositores da sua geração, Olivier Messiaen tornou-se num dos mais respeitados e influentes compositores franceses da segunda metade do século XX. Dono de uma linguagem musical muito própria, sempre a certa distância das vanguardas (embora, de certa forma, cultivando a sua própria vanguarda), alimentada por interesses extra-musicais e, também, por música não ocidental, Messiaen desenvolveu um percurso único no panorama musical do pós-guerra em que temas como Deus e a religião, a natureza (incluindo um tema constante: a ornitologia) e o amor (humano e divino) são presenças determinantes, assim como os resultados da sua exploração rítmica, harmónica e melódica. Como o próprio referiu, num dos seus famosos encontros com Claude Samuel: “há, na minha música, essa justaposição da fé católica, do mito de Tristão e Isolda e da utilização desmedida do canto dos pássaros”. Música muitas vezes figurativa ou programática – numa época em que tal estava já bem longe das preocupações da maioria dos compositores – que aspira à transcendência.

    Et exspecto resurrectionem mortuorum (“E espero a ressurreição dos mortos”) pertence ao conjunto de mais de duas dezenas de obras de temática religiosa de Messiaen. Resultou de uma encomenda de André Malraux, então Ministro dos Assuntos Culturais de França, foi escrita em 1964 e apresentada pela primeira vez, num concerto reservado a convidados, no dia 7 de Maio de 1965 na Sainte-Chapelle de Paris. A estreia pública deu-se em Janeiro de 1966, sob a direcção de Pierre Boulez, no contexto dos concertos do Domaine musical. Destaca-se por uma instrumentação incomum, constituída por 18 madeiras, 16 metais, e 13 percussões metálicas; logo sem qualquer instrumento de cordas. Uma conjugação de instrumentos que, naturalmente, confere à música uma coloração e uma textura muito particulares, desde logo uma das características mais notáveis e diferenciadoras da obra que, nas palavras do compositor, seria assim “destinada a espaços vastos: igrejas, catedrais, e mesmo ao ar livre e a uma montanha alta”.

    Os cinco andamentos, que partilham a temática geral da ressurreição, são precedidos ou introduzidos por uma citação bíblica:

    1. Das profundezas do abismo eu grito para ti, Senhor: Senhor escuta a minha voz! (Salmo 130, 1-2) – é, de facto, das profundezas que, nesta primeira secção, a música surge, solene e ameaçadora. Segue-se uma segunda secção, feitas de acordes penetrantes, verdadeiros gritos do abismo;

    2. Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais; a morte não tem mais império sobre ele (Epístola aos Romanos 6,9) – um andamento em que predomina a melodia, sempre misteriosa e expectante, dividida entre vários instrumentos que a apresentam em declamações solísticas. Nas percussões, que surgem de quando em vez para pontuar a peça, Messiaen introduz ritmos hindus;

    3. Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus... (Jo 5, 25) – peça baseada no canto do Uirapuro da Amazónia, pássaro que, segundo a lenda, se ouve à hora da morte. Este é seguido pelo som dos sinos e, depois, um uníssono nos metais (uma alusão ao início da obra) que conduz a um estrondoso clímax no tam-tam;

    4. Ressuscitarão gloriosos, com um nome novo, no concerto alegre das estrelas e aclamações dos filhos de Deus (Coríntios 15, 43; Apocalipse 2, 17; Job 38, 7) – peça mais complexa em que o compositor faz uso de um outro canto de pássaro, desta feita da Calhandra, e de duas melodias de cantochão (Introito gregoriano e Aleluia do domingo de Páscoa). A solenidade dos sinos e percussões e o júbilo dos trompetes simbolizam a ressur-reição;

    5. E ouvi a voz de uma multidão imensa... (Apocalipse 19, 6) – andamento final que toma a forma de um grande coral, “fortíssimo enorme, unânime e simples”, nas palavras do compositor.


    Francisco Sassetti, 2014

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