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  • Foi Hugues Dufourt quem cunhou o termo “musique spectrale”, num artigo-manifesto publicado em 1979 na revista Conséquences. Embora Dufourt seja filósofo de formação e tenha amplo trabalho publicado como musicólogo, ao criar o termo “música espectral” não o fazia como mero observador externo de uma realidade musical que começara a emergir em Paris uns 10 anos antes: pelo contrário, Dufourt era também um dos principais compositores desse movimento. É certo que entre esses compositores há dois que obtiveram particular fama e reconhecimento internacional: Gérard Grisey (1946-1998) e Tristan Murail (1947-). No entanto, o grupo inicial incluía também Roger Tessier (1939 ), Michaël Lévinas (1949-) e Hugues Dufourt (1943-). Os cinco juntaram-se, em 1973, para criar o ensemble L’itinéraire, o qual, nas palavras de Lévinas, tinha por objectivo permitir-lhes “compor obras instrumentais ou mistas baseadas na exploração das propriedades acústicas dos sons”.

    É precisamente por a música destes compositores se basear nas “propriedades acústicas dos sons” que Dufourt utilizou o termo “espectral”, um termo que se refere ao “espectro” de um som, ou seja, à sua estrutura de frequências. De facto, a generalidade dos sons é composta por uma combinação de múltiplos componentes ou parciais, cada um com a sua frequência. Dependendo da quantidade desses parciais e da sua intensidade relativa ao longo do tempo, diferentes sons apresentam timbres (ou cores) distintas: por exemplo, o violino tem geralmente mais parciais do que a flauta, daí resultando uma cor própria que, ao ouvirmos, reconhecemos instintivamente, sem ter de fazer cálculos. Com o recurso a computadores, porém, é possível obter uma representação visual muito rigorosa do espectro de frequências de um qualquer som. Muitos destes compositores utilizaram justamente espectrogramas para obter material musical que serviu, depois, de base às suas peças: é o caso de Partiels (1975) de Gérard Grisey, obra baseada no timbre de uma nota grave de trombone, tal como revelado a partir do respectivo espectrograma. Esta ênfase na materialidade do som é, de resto, um dos aspectos centrais do movimento, opondo-se a outras abordagens mais abstractas e matematizadas como o serialismo. Na expressão categórica de Gérard Grisey, “nós somos músicos e o nosso modelo é o som e não a literatura, o som e não a matemática, o som e não o teatro, as artes visuais, a física quântica, a geologia, a astrologia ou a acupunctura”.

    Composta em 2004, L’origine du monde não é, claro, dessa fase inicial do espectralismo, mas mantém-se fiel aos princípios fundamentais do movimento. A obra é, de algum modo, um concerto para piano e (pequena) orquestra, mas não num sentido tradicionalnem de exploração de virtuosismo do solista nem de oposição dramática entre solista e orquestra. Nas palavras de Dufourt, L’origine du monde baseia-se numa “integração peculiar do piano e dos sons instrumentais. A percussão é concebida como uma extensão da caixa ressonante do piano, dando ao instrumento uma aparência quase elástica. O tratamento do ensemble instrumental parece-se frequentemente com um som sintetizado que é integrado na ressonância do piano como que numa esfera de potencialidades colorísticas”. 

    A ideia fundamental da peça é, portanto, a exploração de um fenómeno específico do domínio do timbre: a ressonância. No caso do piano, a ressonância refere-se à evolução complexa do som depois do ataque. Imagine-se um acorde tocado ao piano: primeiro ouvimos o ataque, bem definido, e depois o som vai decaindo gradualmente e passando, nesse processo, por cores muito variadas. A obra de Dufourt está cheia desses acordes e ressonâncias: os primeiros aparecem em completo solo, sem acompanhamento (00:28-00:34), mas logo a seguir o ensemble prolonga algumas notas da ressonância do piano, dando-lhes uma cor diferente (00:35-00:50). Mais à frente, surge o processo referido pelo compositor, em que múltiplos instrumentos de percussão vêm colorir, de múltiplas formas, a ressonância dos acordes do piano (00:50-02:35; ouvir também 05:10-06:30).

    O título da obra“a origem do mundo”evoca também certas associações, em especial porque a obra começa de modo muito misterioso, sugerindo algo primevo, uma matéria ainda em formação. À medida que a textura musical se vai desenvolvendo e intensificando, é como se assistíssemos a essa formação do mundo. Mas o título é também uma referência ao célebre quadro do pintor realista Gustave Courbet (1819-77) em que vemos os órgãos genitais de uma mulher nua.


    Daniel Moreira, 2020

    Gravação disponível em https://www.youtube.com/watch?v=mujQmKqIcJ8.

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