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  • Serendib (ou serendip)é o nome antigo, em persa e árabe, da ilha de Ceilão, actual Sri Lanka, junto à Índia. De acordo com a lenda, a ilha foi descoberta, por puro acaso, pelo marinheiro Sinbad. A partir dessa base e de um velho conto persa, um autor britânico do século XVIII, Horace Walpole, inventaria a palavra “serendipity”. Adaptada do inglês, a palavra existe também em português: “serendipidade”, definida no dicionário Priberam como “a faculdade ou o acto de descobrir coisas agradáveis por acaso” ou “coisa descoberta por acaso”.

    Composta entre 1991 e 1992, a obra de Murail evoca este contexto de pelo menos duas formas. Por um lado, a música sugere frequentemente um cenário marítimo, especificamente as ondas do mar. Na primeira parte da peça, por exemplo (00:00-03:00), ouvimos constantemente gestos musicais que abrem e fecham: começam com um pequeno crescendo (como a onda que se forma), atingem depois um pico (a rebentação da onda), e terminam com um recuo (a onda que se desfaz). E, tal como as ondas do mar, algumas ondas de Murail são mais fortes do que outras (como a que rebenta aos 2:30, face à dos 0:53). Por outro lado, a música capta também essa ideia de viagem e de descoberta serendipitosa, ao derivar constantemente para direcções imprevistas. É, de facto, uma música extremamente imprevisível, sempre cheia de agitação interna, e que só raramente se estabiliza. O próprio Murail comentou que, ao compor a obra, se sentiu um pouco como Sinbad, “sendo levado, com um pouco de sorte, para portos sempre mais distantes e fantásticos, assim descobrindo as arquitecturas imprecisase imponentesdos nossos sonhos colectivos”.

    Curiosamente, essa volatilidade e descontinuidade não são muito características da música de Murailnem das suas obras mais antigas, nem das mais recentes. As obras mais antigasentre as quais se contam Territoires de l’oubli (1977), para piano, e Désintegrations (1983), para ensemble e electrónicacaracterizam-se por transformações lentas e graduais do material musical, criando uma sensação de continuidade, direccionalidade e previsibilidade. Depois de uma década e meia a explorar essas evoluções graduais do som, Murail começou a interessar-se, a partir de meados dos anos 80, por texturas mais descontínuas e imprevisíveis. O primeiro passo nesse sentido foi Time and Again (1985), obra para orquestra em que recorre a metáforas cinematográficas para criar uma arquitectura do tempo mais complexa, que joga com cortes súbitos, montagens paralelas, flashbacks e flashforwards. O mesmo acontece em Serendib, que é talvez o seu exercício mais radical a nível de imprevisibilidade e fragmentação do discurso. Curiosamente, a partir dos finais da década de 1990, Murail iria voltar a um discurso mais contínuo e até mais contemplativo, como transparece em obras como Winter Fragments (2000), para quinteto e electrónica, e no seu concerto para piano Le désenchantement du monde (2012).

    Há um aspecto que se mantém, porém, em todas as fases de Murail: um fascínio pela exploração do som, pela sua vida interior, pela sua sensualidade e beleza material. Isso é bem evidente em Serendib, obra extremamente rica a nível tímbrico. Apontemos alguns momentos particularmente interessantes: i) as sonoridades delicadas tipo sino no início da obra (00:00-01:00); ii) a explosão súbita de sonoridades muito densas (a partir dos 02:30); iii) uma textura cintilante com actividade frenética e dispersa entre vários instrumentos (04:55-05:40); iv) numa peça dominada por grandes massas sonoras, pequenos apontamentos solistas, muito líricos ­na flauta (06:10-06:25), em duas trompas (12:20-12:45) e no corne inglês (14:00-14:30); v) numa peça dominada por ritmos fluídos, sem pulsação definida, certos momentos com ritmos muito marcados (03:45-03:55, 10:40-10:50); vi) numa peça quase sempre volátil, um longo momento de acalmia (07:00-10:00).


    Daniel Moreira, 2020

    Gravação disponível em https://www.youtube.com/watch?v=onYZFRHNJVk.

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