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  • 1. Prelúdio

    2. Forlane

    3. Minueto

    4. Rigaudon

    Com a suite para piano Le Tombeau de Couperin, Maurice Ravel (1875-1937) seguiu a tradição de homenagem póstuma sob o símbolo do túmulo (tombeau), peculiar à tradição composicional francesa. Composta entre 1914 e 1917, durante a I Grande Guerra, Le Tombeau de Couperin atesta o interesse de Ravel pelo passado musical francês ao recuperar sob nova perspectiva modelos de danças habituais na suite francesa do século XVIII (simbolizada no título pelo nome de Couperin), demarcando-se no entanto de um nacionalismo explícito. Numa carta ao ex-aluno Roland-Manuel escrita em 1914 após o eclodir do conflito, o compositor menciona os seus planos para esta suite francesa advertindo que “a Marselhesa não vai constar”. Apesar disso, a partitura carrega marcas indeléveis do tempo em que foi composta, desde logo porque cada andamento é dedicado a um amigo morto na guerra. Para a capa da primeira edição da partitura, o próprio Ravel desenhou uma urna funerária drapeada. Mais do que uma homenagem directa, feita expressamente a qualquer dos compositores da família Couperin (ainda que importantíssimos no desenvolvimento da música para tecla do período Barroco, que a obra evoca), mais do que a expressão de uma forma pessoal de neo-classicismo, mais do que uma exaltação da identidade cultural francesa em contexto de conflito, mais do que um retrato sombrio de um mundo desolado, Le Tombeau de Couperin tem na sua essência a apologia da memória. Não evidencia o cenário violento que rodeava o compositor no período de gestação da obra, nem serve como lamento pelos que perderam a vida na guerra; pelo contrário, é uma obra de expressão surpreendentemente leve (“os mortos já são suficientemente tristes no seu silêncio eterno”, diria Ravel em resposta a críticas), enquanto evoca uma civilização que a guerra deixara para trás.

    Em Le Tombeau de Couperin são revisitados alguns traços marcadamente barrocos através de um discurso rico em ornamentação e em elementos modais, ao mesmo tempo que são evidentes a diversidade de colorido harmónico e os complexos cromáticos inconfundivelmente pertencentes ao século XX. Marguerite Long estreou a versão original para piano no ano de 1919 em Paris. Em Junho do mesmo ano, Ravel orquestrou quatro dos seis andamentos originais. Prática comum na produção raveliana, a orquestração de peças anteriores para piano põe em relevo uma extraordinária paleta de conjugações instrumentais, técnicas de execução e subtilezas harmónicas, estas aliadas a um perfeito sentido de equilíbrio tímbrico que faz de Maurice Ravel um dos mestres supremos da orquestra. O efectivo instrumental do Tombeau é propositadamente despojado em número, facilitando uma aproximação às sonoridades do século XVIII, sem prejuízo de variedade ou de consistência sonora. Esta economia de meios possibilita antes uma claríssima definição do tecido musical, pelo qual passam humor, lirismo, elegância, sensualidade e, ao mesmo tempo, o rigor intelectual e o equilíbrio formal herdados dos modelos clássicos. A obra inicia-se com o Prelúdio, que traz movimento constante, rico em ornamentos, a lembrar a maneira improvisatória dos prelúdios setecentistas. Destaca-se a escrita virtuosística para o oboé (proeminente também no Minueto e na secção central do Rigaudon final). A Forlane traz um toque peculiar, quase irónico, com elementos cromáticos a oferecer especial ambiguidade e surpresa até estabilizar a referência modal nos episódios. O Minueto, calmo e delicado, reserva o lado mais emotivo para breves momentos nos quais emerge fugazmente para voltar a dissipar-se, antes de os compassos finais oferecerem um especial jorro de inocência descendente das flautas em direcção ao expressivo acorde final. A vivacidade jovial do Rigaudon, subitamente interrompida por uma secção central melancólica – com oboé a cantar em jeito pastoral, seguido de flauta e clarinete, todos suportados pelo discreto pizzicato das cordas, qual guitarra imaginária – para voltar a surgir com veemência, encerrando assim esta suite memorial em clima de celebração.


    Pedro Almeida, 2015

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