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  • O Quarteto de Cordas op. 37 de Nuno Côrte-Real (n. 1971) remete para um universo de elevação moral e artística. Intitulado Monumentum, in memoriam Philippe Hirshhorn, este primeiro quarteto é o resultado de um projecto longamente pensado e amadurecido, remontando a sua origem ao ano de 1996, o ano da morte de Philippe Hirshhorn. Mas afinal quem é Philippe Hirshhorn? 

    No mundo da música, e da arte, aparece de tempos a tempos um desses raros artistas pelo qual perpassa uma aura de santidade, manifesta pela capacidade de sacrifício, renúncia e humildade despendidos na perseguição de um ideal. Philippe Hirshhorn foi um desses raros homens. Poucos saberão, mas ele foi um dos maiores violinistas do século XX. Nascido em 1946 em Riga, na Lituânia soviética, Hirshhorn foi o vencedor do ultra-prestigiado Concurso Internacional de Violino Rainha Elisabeth em Bruxelas, no ano de 1967. Mas o seu elevado sentido de integridade moral e artística, traduzindo-se numa alta exigência de perfeição técnica e musical, impediu o artista de embarcar numa carreira internacional, porque a busca da perfeição, enquanto sentido de dedicação desinteressada à arte, é incompatível com o star system, com o culto do eu, da fama e do dinheiro que aí prevalece, e também com a sujeição servil aos empresários e às mega-editoras discográficas que no mundo musical actual imperam. Num gesto de pura liberdade e entrega, Hirshhorn decidiu ser um artista na sombra, gerindo uma carreira mais restrita mas segundo parâmetros de exigência artística, e simultaneamente dedicou-se ao ensino. Costumava dizer aos seus alunos: “é preciso que sejam heróis, mas o herói nem sempre é aquele que vence”. Personalidade paradoxal e carismática, Hirshhorn tornou-se uma personagem mítica em círculos musicais restritos, à qual o aparecimento de uma doença grave conferiu uma aura trágica. Cada concerto seu era um acontecimento. A sua abordagem das obras era sempre exemplar tanto técnica como musicalmente. O testemunho do famoso violoncelista Mischa Maisky é revelador: “Philippe Hirshhorn foi o músico mais inacreditável que já conheci. Havia nele uma espécie poder hipnótico místico que mais ninguém tinha.” Morreu em 1996 de um tumor cerebral.

    Quando, em 1996, Côrte-Real chegou à Holanda para estudar composição, cruzou-se, ainda que brevemente, com Hirshhorn, nessa altura já bastante doente e impossibilitado de tocar. A tragédia daquele homem impressionou-o. A pureza da sua entrega à arte, o sacrifício e a devoção inspiraram-no. E desde esse momento amadureceu no espírito do compositor a ideia de uma homenagem póstuma a este herói da arte musical, a qual acabaria por se concretizar em 2009 com este Monumentum, in memoriam Philippe Hirshhorn. Desde logo parece simbolicamente representativa a formação instrumental escolhida por Nuno Côrte-Real e a preferência por um discurso predominantemente contrapontístico. O quarteto de cordas é tido, desde sempre, como o protótipo da música pura e da música séria, para ser desfrutada por conhecedores, pois devido à homogeneidade tímbrica do conjunto a música dá-se num estado de concisão e de nudez essencial, despida de todo o supérfluo. E por isso é considerado um género nobre, e também exigente do ponto de vista compositivo, pois põe problemas específicos que exigem um domínio absoluto da escrita musical. Por outro lado, essa procura de um estilo elevado, que enalteça simbolicamente a arte musical e o ideal artístico de Hirshhorn, é reforçada pela utilização do contraponto, uma técnica originariamente associada à música religiosa. A ideia duma dimensão religiosa da arte e da música como experiência mística e transcendente é claramente sugerida através de fragmentos extraídos das Confissões de Santo Agostinho, que o compositor utiliza para dar título a cada uma das secções da obra. Finalmente deve acrescentar-se que, para construir este Monumentum, Côrte-Real inspirou-se e procurou transportar para música as linhas, os ângulos e a geometria sideral do mestre Álvaro Siza Vieira. 

     


    Afonso Miranda, 2016 

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